À Primeira Vista

“Lágrimas de chuva molham o vidro da janela, mas ninguém me vê. O mundo é muito estranho, eu estou plantando meus problemas que eu quero esquecer. Será que existe alguém ou algum motivo importante que justifique a vida ou pelo menos este instante?”

A voz de Paula Toler rasgava meus ouvidos como se estes fossem papéis de seda. Sedado pela sede de cantar, apenas olhava a rua, que se molhava nua, especialmente escura naquele dia. Maio ou junho, numa tarde perdida de 1990. Ninguém ousava andar naquela chuva. O céu caia. Batia forte contra o chão. Chorava leve pelos vãos. Voava lerdo pelos ares. Arava sonhos de inventar. E venderia minha calma por uma boa causa. Mas só chovia. E nada merecia aquelas lágrimas. Magras. Mal curadas.

Chorava porque tinha vontade de chorar. Nada de preocupações, crises ou sentimentalismos vãos. Chorava. E me bastava. Necessidade fisiológica de verter. Filosófica de inverter. Entreter meu coração. Não podia lembrar do motivo, sorriso ou vestígio. Tudo bem. Confesso. Eu estava apaixonado. Apaixonado pela possibilidade de me apaixonar. Há muito não encontrava este hiato. Este breve intervalo. Recreio das aulas de se gostar. E estava adorando. Quase cheguei a imaginar que seria possível me infernizar pela primeira pessoa que cruzasse o meu caminho. E meio que por instinto, voltei a cabeça para trás. Para os lados. Foi em vão. Estava sozinho. Em um breve olhar visitei, sem sair do lugar, os cômodos daquele pequeno apartamento. Que meu irmão mais velho gostava de chamar de apertamento, sentindo naquela frase uma incrível força criativa.

Tinha dezessete anos. Morava com meus pais e dois irmãos. Sou o do meio. E mesmo assim, pensava ser o mais inteligente entre meus amigos. Entretenimentos. Entre umas e outras, conversas de pé de prédio, quase sempre filosóficas. Filávamos boia, bola, bocas. Sempre existia algo a que se comentar. Contemplar. Completar. Sorrisos. Sombras. Sonhos soltos de jogar. Brincar com a vida. Com o tempo. Com tanta intenção. Pretensão de mudar. Morder, marcar, misturar, melhorar nossos momentos. Mentindo a meninas, montando mistérios, merecendo milhares de abraços abrasivos. Abrindo o Brasil. E brincando de ser gente. Gentil, genial, atual. Só queríamos ser atuais. E dependurados em todos os nossos rituais, íamos levando, vendo, voando…

Jogar bola. Isso é o que sabíamos fazer. Gols, goleiros, goleadas. Chuteiras aladas ao lado de lentos momentos de prazer. Tardes inteiras sem ter o que fazer. Só a bola. A bela das feras. Férias passadas, presentes, futuras. Figuras de álbum de campeonato. Bola no pé. Pedaço de parque. Bola na trave. Travessura de moleque. Bola na rede. Redemoinhos de ternura. Torneios inacabados. Pênaltis desperdiçados. Impedimentos mal marcados. Sorteios de cada lado. Saltos exagerados. Gritos exaltados. Animados. Denunciando o fim da festa. Enquanto a noite cai, piadas, conversas fiadas. As alegrias estampadas vão se perdendo, escurecendo, desmaiando…

À noite, as mulheres ganham vida. Viram mira. Mimam a rima. Merecem atenção. Conversas costuradas. Costumes incondicionais. Toques condensados. Interesses condicionados. Acionando olhares. Deletando frases. Freando impulsos. Impossível não notar. Namorar. Namorar. Joana. Elisângela. Angélica. Carla. Lara. Ariane. Nalini. Ane. Ana. Ama. Mariana. Nayara. Namorada. Última namorada? Uns 4 meses. Nalini. Me trocou por outro sonho. Antes dela, Manuela, minha primeira namorada. Dessas de se perder tempo com ela. Perdi muito tempo com ela. Mas acordei atento. E quando percebi, ainda havia o que ser feito. E nada fiz. Ela fez. Foi ao aeroporto e pegou o avião. Foi morrer em Campinas. Se tivesse ficado. Não sei. Não lembro. Não quero pensar, acreditar ou entender. Não pretendo. Não tanto. No momento tentava apenas entardecer. Junto com o dia. A luz que ia. E a música vazia.

Acompanhava uma gota com o dedo. Dedurava minha tristeza com um sorriso. Censurava minha alegria com um olhar. Olhava minha vida pelo vidro. Vendia minha solidão por um amigo, um pingo ou pinga. Era como se estivesse fingindo. Digno pano de fundo. Finda o calor com a fresta. Franca força me atrai. Atrás das grades me encerro. Caio. Teto. Tonto. Estou tonto. Uma água para fazer bem. Bendito caminho até a cozinha. Conselho de mãe colocar as sandálias. Sandices da boca virar na garrafa. Agarrado no jeito de ver meu pai algumas vezes fazendo. Falando pelos cotovelos. Correndo com olhares acesos. Acertos de contas. Contágios de pai para filho. A água desce gelada. Suave garganta molhada. Melhora a disposição da casa. Cessa as lágrimas. Lembra as fadas. Faz a festa.

Quase outro, voltei à janela. Talvez querendo recuperar a dor perdida. Percebendo o momento que me pedia, praticamente exigia minha presença. Pretensa alegria. Propensa tristeza. Reengenharia de melancolia. Não conseguia. Uma luz de farol de carro despertou minha atenção. Ainda não era noite. Mas estava escuro. E me esquivava. Esgueirava. Não queria chamar atenção. Mas atento segui a ação. A porta se abriu. Saiu uma mulher. Melhor não olhar. Começou a chover. Vontade de chorar. Ela cobriu o rosto com uma pasta. Peste de poste. Não consegui ver quem era. Apenas percebi a elegância no andar da figura feminina que deslizava sobre o chão, sob a chuva em meio à escuridão que se anunciava. Ela entrava no prédio vizinho. Visitava alguém por ali. Porque ali, definitivamente não morava. E sem demorar nada, o carro se foi. Fiquei curioso. Sem motivo ou consolo. Furioso. Sem razão ou esporro. Quem era? Quem dera saber.

Por um motivo que não consegui inventar, comecei a achar que precisava ver aquele rosto. Um sonho ou receio. Um gosto ou pretexto para preencher aquele dia. Que se não sorria, também já não chorava tanto. E enquanto morria, enchia minha cabeça de planos. Plenamente consciente das minhas condições, controlei o sorriso. E sóbrio de gargalhadas, não contive minhas expressões mais baratas. Enfeitei meu espelho com algumas caras. Corri pro meu quarto e mudei as palavras tão bem cantadas. Entusiasmadas pela possibilidade de causar choro. Coro. Todo o apartamento pedia rock. Me enrolei em elepês e elegi a insensatez. A toda altura torturei o silêncio. Com som nos ouvidos caio em desespero.

Preciso. Pretendo. Prevejo um breve plano. Planejo. Pestanejo. Predigo a primeira prova. Pressinto. Prometo. Presunção a minha prevalecer o sonho: precisar de um encontro. Matéria prima. Pronta vontade de resolver aquilo logo. Louco comecei a dançar. Denso, dei para imaginar. Mágico, comecei a pular. Quem era? Quem dera saber.

O telefone tocou. Troquei o disco. Nem escutei. Pausa. Estava na hora de desligar. Guitarras à parte. Partidas, quebradas. Vontades de ter, de tocar. Te ter, te tocar. Verdades a vivenciar. Precisava saber quem era aquela mulher. Melhor pensar. Comecei a ouvir o telefone. Claro, o telefone. Corri até ele e não consegui falar. Faltou o que dizer. Sobrou o que escutar.

- Mariozinho?

Ah, já ia esquecendo. Meu nome é Mário. Prazer em conhecer.

- Mariozinho? Mariozinho? Mariozinho?

- Sim, diga mãe. — finalmente respondi.

- Eu e seu pai vamos chegar tarde hoje. Parece que ele tem uma reunião. Aí depois ele vai passar aqui pra gente ir fazer compras. Não saia não pra ajudar a gente a carregar as compras, viu?

- Tá, tchau.

Já sei, pensei. Vou ligar para Ítalo. Claro. Ele mora no prédio que ela entrou. Entretanto. Não sei. E se eu fosse lá? Não. Vou ligar. Ocupado. Ítalo sempre fala muito ao telefone. Fonemas perdidos no ar. Artifícios desperdiçados pelo fio. Fervilhando pensamentos errados. Enredos mal inventados. Papo. Conversa mole. Ítalo tinha várias namoradas. Levava a vida mentindo e mantendo bocas para beijar, seios para pegar, colos para deitar, ombros para chorar. Cara de pau. Sempre chorava. Lágrimas de crocodilo. Contradições óbvias nunca percebidas. Pequenas burras. Diversão garantida. Casos inacreditáveis. Liguei de novo. Ocupado. Ítalo sempre tinha tempo para as garotas. Lábia para todas as horas. Falava de tudo. Levava no bico. Levava-me junto. Éramos uma dupla. Dupla de diferentes. Ítalo sempre pensou nas garotas como números. Nunca duvidou que as mulheres tinham vindo ao mundo para satisfazê-lo. Sorte dele. Sorte a minha. Me divertia. Sempre fui mais sonhador. Sondador. Sendero de luz nas trevas da dor. Adorava uma história, uma boemia. Bem contada, bem bebida. Um bar beirando o céu, beijando o mar, buscando a vida em um vento qualquer. Eventos sempre hão de acontecer. Percebia estar mais perto do prognóstico. Protótipo de pensamento ausente. Quase esqueci. Liguei de novo. Chamou.

- Alôa.

Ítalo tinha um sotaque carioca que eu nunca entendi direito. Bem, a mãe dele é carioca. Mas e daí? O pai dele é pernambucano.

- Digaí Ítalo.

- Oi Mário.

Ítalo era um dos poucos do grupo que não conseguiam me chamar de Mariozinho. Resumindo, ele tinha várias características linguísticas que eu não conseguia entender.

- Tá fazendo o que?

- Nada, tô aqui de bobeira.

- Ah, então eu vou passar aí pra gente bater um papo.

Nunca havia me escalado tão rápido. Aliás, ele já devia estar bastante surpreso com o meu telefonema. Definitivamente não sou desses que ligam para as pessoas. Ou seja, também existem questões linguísticas a meu respeito que não consigo entender muito bem.

- Falou. Chega aí.

Cheguei muito rápido. Praticamente um voo alçado pela janela do quarto. Um quarto de tempo. Um tempo mais rápido. Um rádio gritando. Imediatamente desligado. Nem pensei muito na roupa. Estava chovendo. Chinelo nos pés. Bermuda folgada. Camisa sem manga. Cabelo molhado. Interfonei. Ele nem perguntou quem era. Foi logo fazendo aquele barulhinho cortante. A porta abriu e lá estava eu. Cheio de olhos me molhava. Perdido em gotas, tentava encontrar uma pista. Nada.

Depois de me convencer a sair do lugar, comecei a subir as escadas. Engraçado. Os prédios do condomínio onde morava não tinham elevadores. Mas eu nunca os senti falta. Pelo contrário. Adorava subir aqueles degraus. E subia cada dia mais rápido. De dois em dois. De três em três. Com pulos de corredor. Pernas incandescentes. Mas naquela quase noite, não estava com pressa. Precisos olhares pelas janelas buscavam pistas, formas, silhuetas. Ítalo morava no último andar. O que era bom. Assim, poderia investigar todos os cantos do prédio em busca de um vestígio, sorriso, sei lá.

No térreo, nem sombra. No primeiro, um barulho. No segundo, uma porta. O terceiro era o último. Meio que já desmotivado, comecei a andar em direção à porta número 301. E sem esperança, acionei a campainha. Mas enquanto Ítalo se arrumava, levantava ou saia do banho para me atender, uma tranca se mexeu. Atento, procurei pela fonte do barulho. Percebi que vinha do outro lado do corredor. Era uma chance. Podia ser ela. Quando lembrei disso, voltei correndo para a escada. Tinha que parecer que estava subindo naquele momento. Um acaso. Uma vontade indiscutível do destino. Um tino ou desatino. Um momento de instinto. Desci mais um pouco. Parei. Voltei a subir. Olhava para os degraus. Pisava sem força. Vi pés calçados. Um tênis. Continuei subindo o olhar. Meias em tornozelo. Canela nua. Joelho gordo. Coxa cabeluda. Bermuda jeans. Barriga exposta e gorda. Top surrado. Pescoço suado. Sorriso banguelo. Óculos. Visão do inferno. Não era ela. Claro que não era ela. Mas quem era ela? Quem dera saber.

Quando voltei ao que costumávamos chamar de hall, mesmo sem saber o que aquilo significava, a porta do apartamento de Ítalo já estava aberta. Ele vinha empurrando uma garota que estava de costas para mim. Sorria o desgraçado. Com aquele famoso olhar de quem está mandando no pedaço, me encarou sorrindo nojento. E com uma pose absurdamente cretina, piscou-me o olho. Não passava pela minha cabeça parar, escutar aquela trela ou derramar elogios mentirosos sobre o galã. Minha visita tinha outro propósito. Passei direto e fui entrando. Liguei o som. Abri o armário. Peguei o binóculo. Fui para a janela. Ítalo entrou:

- Tem mulé pelada essa hora não, véi.

- Não precisa tá pelada.

- Qual é a boa?

- É exatamente isso que eu estou querendo saber. Há pouco, entrou uma menina aqui no seu prédio. Parecia bonita, mas não deu pra ver o rosto. Encasquetei que quero ver o rosto de qualquer jeito.

- Mas, e o corpo? Era boa de corpo?

- Não sei. Não deu pra ver direito. Também não vem ao caso. Quero o rosto!

- Que tara hein? Lembra da roupa pelo menos?

- Calça jeans. Definitivamente calça jeans. Sapato preto. A camisa, não lembro. Chegou de carro.

- Ah, agora tá fácil. Mulher sem rosto usando calça jeans e sapato preto. Tá assim desse tipo aí na rua. Vai lá.

- Vai brincando, vai. Sei lá, senti algo diferente quando vi aquela menina. Parecia que a gente já se conhecia. E se for Jamille? Pode ser Jamille. Ela tem uma afilhada que mora aqui. Vai que…

- E se for? Você vai fazer o quê? Essa menina trava você, velho, tô pra ver. Você chega em todas, qualquer uma, mas nessa tal de Jamille… Você precisa resolver isso, cara. Quer um suco?

- Não. Não era Jamille.

Uma particularidade sobre a casa de Ítalo: você abria a geladeira e só tinha suco. Sucos de todos os sabores. Água mesmo, quase nunca. Refrigerante, só final de semana. Mas suco, jarras e mais jarras, todos os dias.

Agradeci e continuei olhando pelo binóculo. Escaneei cada centímetro quadrado daquele prédio. Nada. Olhei. Olhei de novo. De novo. Nada. Ítalo falava coisas sem sentido. Eu desistia de procurar. Mirava estrelas. Estava mesmo estranho naquele dia. Noite. Que noite linda. Nuvens rosas ladeando buracos negros. Buracos negros envolvendo estrelas brilhantes. Nem chuva nem choro. Eu era quase um outro. Lembrei que precisava voltar para casa. Ajudar meus pais a subir com as compras. Contrariando todos os meus instintos quase extintos de bom vadio. E mesmo arredio, segui meu caminho. Deixei meu amigo de sotaque carioca falando sozinho. Sorrindo de alguma nova conquista.

Comecei a descer as escadas quase que esquecido do motivo que tinha me levado até ali. Estava pensando no que ia fazer quando chegasse em casa. Ler. Escrever. Sorrir. Ouvir. Saber. Procurar entender algum assunto de alguma matéria que provavelmente faria um teste no outro dia. E enquanto pensava, passava. Mãos nas paredes. Pés nos degraus. Cabeça girando.

Cabeça para baixo. Esbarrei. Olhei. Vi. Não acreditei. Era ela. Tinha que ser. Nos olhamos. Não muito. Mas profundamente. Era como se uma lança lançasse mão de toda a sua navalha para cortar meus mais íntimos ressentimentos. Era como se toda a dança já criada no mundo não fosse o suficiente para demonstrar a densidade do momento. Era como se todo o degelo dos polos tivesse entrado por minha garganta. Visitado vértebras, veias, pulmões, estômagos e corações. Era linda. E não lembro ou não entendo o tamanho do tempo em que ficamos apenas nos olhando. Até que ela quebrou o silêncio:

- Você devia olhar menos pra mim e mais pra frente.

- Mas você está na minha frente.

- Equívoco do tempo.

- Prêmio do destino.

- Isso não existe.

- O quê?

- O destino.

Não queria entrar numa discussão teológica ou filosófica a respeito do tema. Afinal, na época, não tinha conteúdo suficiente, nem argumentos inteligentes para fazê-la acreditar. Já não dava, como ainda não dá, para entrar em um embate sabendo dos grandes riscos de perder. Só entro para ganhar. E você não precisa entender. Então resolvi ficar ali fora mais um pouco. Curtindo a vista. Brilhando os olhos. Percebendo todos aqueles lábios em ternos movimentos romper de novo o silêncio da escada:

- Ou você acha que tudo tem que ter um por que?

- Você não acha? — contra-ataquei.

- Às vezes sim. Mas não seria muito fácil?

- Ou muito difícil. — sentenciei.

- É. Na maioria das vezes, difícil.

- E algumas deliciosas vezes, muito fácil.

Não posso negar que, neste momento, fiz uso de um certo charme. Se me lembro bem, até aproximei meu corpo. Não muito. Um pouco. Mas ela se esquivou. Disse que precisava passar e voou pela escada acima enquanto eu rolava escada abaixo. Rolei até o chão. Deslizei até em casa. Me joguei no telefone. Liguei. Queria saber se Ítalo a tinha visto. Ela estava subindo. De repente um outro esbarrão no corredor, dessa vez com ele. Mergulhei na expectativa. Uma voz ativa atendeu:

- Alô

A voz que eu ouvi era de mulher, quer dizer, definitivamente não era a de Ítalo. Tampouco da mãe de Ítalo, não tinha sotaque carioca. Como a possibilidade de ser o pai de Ítalo estava obviamente descartada, não tive reação. Decidi ouvir mais alguns alôs até ter certeza. Era ela. A bela sem nome tinha voz. E era aquela. Sem dúvida. Fiquei perdido.

Não entendia como tudo tinha chegado àquele ponto. Minha mão suava. A parede tremia. O chão desapareceu e eu caí. Fiquei tentado a ser levado apenas pela inércia. E quanto mais o teto ia se distanciando, mais eu ia me perdendo. Em sentimentos plenos. Planos sem meio. Meias sem pé nem cabeça. Até que resolvi fechar os olhos e deixar o corpo gelar…

Acordei envolto em um plástico transparente. E antes de perceber que estava com falta de ar, olhei em volta. Tudo branco. Fazia frio. Entendi que precisava sair dali. Pele grudada. Pulmão colado. Veias pulando. Coração rasgado. Pulso. Impulso. A luta começou. Uma força até então improvável começou a dirigir meus braços. O corpo todo rangia, rugia, gritava. Os movimentos dos membros eram cada vez mais apressados, descompassados e aleatórios. Chutes, cotoveladas e cabeçadas precediam a mais chutes, cotoveladas e cabeçadas. E enquanto a tensão ia diminuindo a cada segundo e o corpo tombando a cada istmo de tempo, o plástico transparente parecia inabalável, inacabável. Era minha a aflição. E quando o último fragmento da última molécula de ar começou a abandonar meu corpo, ouvi um grito saindo das profundezas das minhas trevas. Inquietudes. Traumas. Complicações. Um barulho e a queda. Uma guerra e a paz. O arco e a flecha. O sentido se esvai. E em desacordo, acordo.

A campainha tocava. Gritava. Insistente. Irritante. Eram meus pais. E as compras. Uma vez por semana, em todas as semanas do ano, tínhamos que dar aquele apoio. Descer e subir cerca de 30 degraus com sacos brancos de supermercado cheios de mantimentos. Fui carregando e descarregando sem perceber conteúdos, conversas, azulejos ou promessas. Só conseguia pensar em tudo o que tinha acabado de acontecer. Era ela. Mas como é possível? Como é que ela poderia ter atendido o telefone na casa de Ítalo? Isto exige um grau de intimidade que não se consegue do dia para a noite. Por mais intimidade que se consiga ter durante uma noite. Desci a última vez quase em vão. Não havia mais sacos a serem carregados. Então aproveitei a viagem e resolvi dar uns passos a mais. Ganhar o prédio ao lado. Escalar escadas. Esbarrar portas. Encarar a verdade.

O portão do muro do prédio estava aberto. Nenhum sinal de vida. O portão do prédio também estava aberto. No terceiro andar, a porta do apartamento de Ítalo estava fechada. Mas não por muito tempo.

Olho pela janela do hall. Luzes em semitons saem pela sala. Resolvo apertar a campainha. Ouço sorrisos. Quase soluços. Hesitei. Voltei à escada. Estrada de volta. Caminho de casa. Nada. A curiosidade é maior que a covardia. Tem coisas que não dá para esperar a noite virar dia. Ao me reaproximar da porta, lembrei que Ítalo tinha a mania de não trancá-la. Nada de campainha. Mão na maçaneta. Porta aberta. Meia luz. Ela estava em pé. De frente para mim. A uns quatro metros de distância. E como quem sente, enfim, um alívio imediato, sentou-se no sofá e cruzou as pernas em um gesto premeditado.

- Você costuma invadir o apartamento dos outros? — disse ela.

- Você costuma atender o telefone na casa dos outros? — retribui o carinho.

- Só na casa daqueles com quem tenho intimidade.

- O mesmo serve pra mim.

- E você é o quê de Ítalo?

- Não se preocupe, não somos namorados. — eu ironizei.

- Seria engraçado. — ela provocou.

- Ou trágico.

- A maneira de encarar os fatos revela muito sobre a personalidade de uma pessoa. — como uma professora de primário, ela descruzou as pernas e as cruzou de novo.

- Você é psicóloga?

- Sou Maria, prazer.

- Mário, prazer.

Neste momento, ela mudou de cor. Empalideceu. Procurou apoio em alguma coisa. As mãos buscavam o que tocar. Mas sem achar, tombaram para a frente. Encostou a cabeça nos joelhos. Respirou fundo. O ar que entrava pelo corpo fez seu tronco voltar à posição original. Expirou.

- Claro. Mário. Você não estava viajando?

- Não. — estranhei.

Ítalo apareceu na porta do quarto e interrompeu a conversa. Estava tão assustado quanto ela.

- Mário? Você aqui? Esqueceu alguma coisa?

- Não. Vim conversar um lance aí com você que rolou hoje depois que saí daqui. Não sabia que você tava acompanhado, foi mal.

- Se vocês quiserem, eu posso ir embora.

Disse ela com uma voz fina e breve, quase inexistente. Neste momento, Maria olhava para Ítalo de uma forma estranha, como que desconfiada, se esforçando no intuito de entender alguma informação que teria ficado entalada em conversa fiada de um dia sem data.

- Não, Maria. Não tem problema nenhum. Mário é que pode deixar pra falar sobre isso amanhã, né? — precipitou-se Ítalo.

- Isso. Claro. Amanhã eu volto aí.

- Não! — a voz dela ganhou volume e força. — Fiquemos os três aqui, então. Se Ítalo não se importar, claro.

- Quem? Eu? Não. De boa. Só achei que a gente…

- Eu faço questão, Ítalo. É que vocês parecem ser tão amigos e esse Mário, tem um jeito… Eu não te conheço de algum lugar?

- Claro. Da escada hoje mais cedo. Já esqueceu?

- Ah, então vocês já se conhecem? — alarmou-se Ítalo.

- Foi um esbarrão hoje, quando estava vindo pra cá. Seu amigo acredita em destino, sabia?

- Destino? Como assim, destino? O que é que isso tem a ver… Venha cá, vocês se esbarram na escada e ela já sabe que você acredita em destino?

Questionou Ítalo enquanto me encarava com um olho de medo e outro de raiva. Um poço de nervos e um pires de calma.

- Foi só um equívoco do tempo. — Eu disse.

- Foi o quê?

Ítalo se mostrava ainda mais preocupado e impaciente. Parecia perdido, sem entender o que estava acontecendo. Na verdade, acho que ninguém sabia o que estava acontecendo. Estava todo mundo meio perdido mesmo sem estarmos bebendo.

- Pois é, se eu tivesse atrasado minha saída em alguns segundos, não haveria esbarrão nenhum. Ou seja, foi um equívoco do tempo. — Disse Maria recobrando sua cor natural.

- É, talvez seja tarde demais mesmo. — Retruquei.

- Ou cedo demais. — Ela respondeu.

Ítalo, cada vez mais aborrecido, se sentou. Juntou cotovelos e joelhos, mãos e queixo. Balançou a cabeça negativamente e interveio:

- Sabe o que acontece? Eu estou boiando. E eu odeio ficar boiando! Do que é vocês estão falando?

- De um encontrão na escada, só isso. E, sabe de uma coisa, acho que vou nessa. Eu cheguei assim, sem avisar, odeio atrapalhar e eu tô com uma forte impressão de que estou atrapalhando o casalzinho.

- Chegar atrasado, eu entendo, mas sair mais cedo? Vai perder o melhor da festa? — elevou o tom de voz, Maria.

- Vocês querem parar de falar em código? — Gritou Ítalo.

- Nem sempre o tempo se equivoca. — Sentenciei, antes de ir em direção à porta.

Não queria ir. Algo me prendia naquela sala. O silêncio era aterrorizante. Eu diminuía os passos na esperança de que um deles me chamasse de volta. Nada acontecia. Minha cabeça dava voltas, volta e meia bambeava. Imaginava a cena que poderia estar acontecendo às minhas costas. Costurei imagens soltas até não mais suportar o peso da trama. Nunca tinha visto aquela mulher na minha frente. E agora estava paralisado por desenhar o que poderia estar se passando atrás de mim. A vontade era implodir. Virar fumaça em um estalo. Pólvora acesa no chão. Rastro de fogo na ilusão. Reunião de sentimentos ruins. Não podia continuar naquela tortura. Mesmo antes de me virar para eles, perguntei:

- O que é que está rolando entre vocês?

- Nada! — Apressou-se em responder Maria.

- Nada? — Questionou Ítalo.

- Nada sério. E você sabe muito bem disso.

Não pude evitar de deixar escapar um sorriso de canto de boca enquanto me virava de volta. Tímido, ligeiro, frio. Mas ainda sim, um sorriso. Ítalo pareceu não ter gostado.

- Tá rindo de quê, porra?

- É que com você, não dá mesmo pra rolar nada de sério, né? E você sabe muito bem disso.

- Pois é. — Completou Maria.

- Ah, agora eu virei o paredão. Vou ser fuzilado!

Disse Ítalo enquanto abria a porta da estante e pegava uma garrafa de conhaque. Manuela pareceu não se incomodar. E continuou a conversa:

- Se eu quisesse algo sério, seria mesmo. Mas não quero. Ninguém está enganando ninguém aqui.

Ítalo colocou três copos sobre a mesa. E os encheu. Ato contínuo, virei o copo que me cabia em um único e curto gole. Queimação. Era o rastro de fogo que sentia por fora finalmente dentro de mim. Devolvi o copo à mesa. Ítalo o encheu de novo. Lembrei de Gilberto Gil e entendi o que ele quis dizer quando cantou que um copo vazio está cheio de ar. Manuela deu um gole apenas e devolveu o copo ainda meio cheio à mesa. Ou seria meio vazio? Ítalo bebeu três em sequência. Quebrei o silêncio.

- Eu não consigo entender. — Maria fez cara de espanto e questionou:

- O que?

- Isso de ficar sem ser sério, só por ficar. Será que… — Ítalo interrompeu:

- Ah, agora vem o certinho, o romântico, o gente boa. Senhoras e senhores, bom espetáculo!

Era a primeira vez que via Ítalo agir daquela forma comigo. Éramos pessoas completamente diferentes em diversos aspectos, mas por uma dessas casualidades da vida, acabamos nos tornando amigos. Não seria exagero afirmar que éramos quase como irmãos. Não nos criticávamos em público. Mesmo quando estávamos a sós, na grande maioria das vezes, rasgávamos elogios um para o outro. Mas ele estava visivelmente perturbado naquela noite. Estava nervoso. Saltavam-lhes veias pelo pescoço. Cuspia palavras em desaforo. Estava desconfortável na própria casa. Sentia-se ameaçado, um bicho acuado. Jogado nas cordas como um lutador que sabe que vai perder, mas não se entrega. Mas Maria insistiu:

- Peraí, calma! O que é que você não entende, Mário?

- Ele não entende que eu gosto de mulher. Gosto de verdade! E gosto de variedade. Ele não entende que estamos na idade de experimentar, de viver tudo o que é possível viver, que daqui a uns anos estaremos todos casados, cheios de filhos e levando uma vida medíocre em frente à televisão ou farofando numa praia qualquer. Eu vivo a vida enquanto ele sonha. Ele não entende nada.

- Não é isso. Só acho que pra viver a vida com tudo o que ela tem pra oferecer não precisa ser canalha! — retruquei.

- Quem é canalha aqui, seu romanticozinho de merda?

- Você! Você é um canalha, Ítalo. Pelo menos com as mulheres. Leva elas a acreditarem que estão vivendo um relacionamento sério, quando, na verdade, você só tá tirando um sarro. Com quantas mesmo você namora ao mesmo tempo? Quantas namoradas você tem hoje, velho?

- Mulheres gostam de viver ilusões, otário. É isso que ofereço a elas. Por isso elas me adoram. E sendo assim, pelo menos eu sou fiel a mim mesmo. Pior é você, que não sabe viver sem estar apaixonado, que prefere perder a si mesmo do que perder uma história de amor. Você é um babaca, velho. Histórias de amor só existem para preencher livros idiotas, novelas baratas e filminhos de sessão da tarde! Isso que você acredita tanto e se devota tanto não existe! Inventaram essa porra de amor só pra ninguém reclamar da vidinha mais ou menos que se leva depois que se casa!

- Ítalo, eu sou seu amigo. Gosto muito de você e você sabe disso. Mas isso não significa que a gente tenha que concordar sempre. E neste assunto, sinto muito, mas enquanto você acha que tá sendo o bonzão, o espertalhão, o fodão, tá todo mundo vendo que você não passa de um filho da puta.

Fez-se um breve silêncio. Leve momento de trégua. Não mais que sessenta centímetros de uma régua, que um trago de conhaque, que a distância entre o raio e o som do trovão em uma tempestade. Maria se levantou e se colocou entre nós dois. Tinha os olhos de uma fada, a postura de uma santa, o jeito de um anjo. Uma calma que espanta. E com a voz de um passarinho disse:

- Vocês são tão bonitos, apaixonados pela vida. Vejo tanta vida em vocês. E ao mesmo tempo, tanto ainda o que viver, o que aprender. Vocês precisam conhecer o equilíbrio. Mas só o tempo e a vida lhes levarão até lá. Espero que vocês, entre discussões e carinhos, não se percam no caminho.

Maria olhou nos meus olhos, sorriu, colocou a mão direita no meu peito e disse que eu pensava muito com o coração. Depois, olhou para Ítalo, passou a língua pelos lábios e segurou o pau dele com a mão esquerda, dizendo que ele pensava muito com a cabeça de baixo. Não sei quanto ao pau de Ítalo, mas o meu coração latejava em movimentos bruscos e velozes. Maria então colocou suas mãos em nossas cabeças e sentenciou:

- Um dia, vocês aprenderão a usar mais isso aqui.

Sem fazer muita força, ela uniu nossas cabeças pela testa, calou nossa ira com um abraço, selou nossa paz com um “obrigado” e se despediu com um simples “se cuidem”. Ainda tínhamos as cabeças baixas quando ela abriu a porta e saiu. Nos afastamos e cada um se sentou em um canto do sofá. Ficamos horas assim, sem falar nada. Até que, sem pensar muito bem no que ia dizer, reabri o diálogo:

- Puta que o pariu, que mulher é essa?

- Já tá apaixonado, né?

- Claro que não. Conheci ela agora! Mas a impressão que tenho é a de que a conheço há anos.

- Sei. Você já está apaixonado pela possibilidade de se apaixonar de novo, né? Eu coleciono mulheres, você coleciona amores.

- Para com isso, cara. Não é nada disso.

- É isso sim. Não passamos de dois filhos da puta que usam as mulheres, seus corpos e seus sonhos para nos satisfazer.

- É, eu alimentando os sonhos e você os corpos. — me rendi.

- Será que algum dia uma mulher vai se apaixonar por nós dois ao mesmo tempo?

- Jamais dividiria uma mulher com você.

- Nem a Maria? — questionou Ítalo.

- Claro que não! Não estou interessado, já disse. Não estou apaixonado. Só fiquei um pouco impressionado. Ela é bonita, inteligente, fala bem. Parece mais adulta. Quanto anos ela tem, você sabe?

- Dezesseis.

- Parece que tem uns trinta e seis.

- É, ela é especial. Por ela, eu pensei seriamente em rever os meus conceitos.

- Sério? Pensou em virar um cara sério?

- Pensei, cara. Na verdade, ainda penso.

- E você já falou isso com ela?

- Já. Mas ela não quer. Nunca quis. Sempre foi muito sincera, clara. Disse que nunca ia querer nada sério comigo.

- Deve ser sua fama.

- É, Patrícia deve ter falado horrores de mim.

- Patrícia? O que é que a Patrícia tem a ver com a Maria?

- Cara, Maria é prima de Patrícia. Por isso ela frequenta o prédio.

- Ah é? — Estranhei. — E como é que eu nunca a vi aqui antes?

- Sei lá. Advinha como a gente se conheceu?

- Como?

- Nos esbarramos na escada. — completou Ítalo antes de sorrir.

- Sério? — indaguei também sorrindo.

- Sério. E sabe qual foi a primeira pergunta que ela me fez?

- Qual?

- Se eu conhecia Mário.

- Que Mário? Eu?

- Só podia ser. Você conhece algum outro Mário por aqui? Ela disse que precisava se encontrar com um Mário.

- Como assim?

- Não sei, cara.

- Aí você disse que me conhecia, e ela?

- Desculpa, cara.

- Por que?

- Eu disse que te conhecia, claro. Mas também disse que você não morava mais aqui, que tinha se mudado, que tava morando em São Paulo.

- Por que você fez isso?

- Não sei, velho. Foi um lance estranho, sabe? Senti um medo que nunca havia sentido, não queria perder ela. E os olhos dela brilhavam tanto quando ela falava de você… Eu quis ela pra mim desde o primeiro momento, sabe? Era tudo ou nada.

- Isso não é um jogo, Ítalo!

- É sim, cara. Isso sempre foi e sempre será um jogo. E enquanto você não entender isso, vai continuar aí, se apaixonando à toa. E, pô, claro que a gente é amigo e tal, eu respeito você pra caralho, mas, sabe como é, né? Você conhece muito bem o nosso pacto.

- Amigos, amigos, mulheres a parte. — Falamos juntos.

- Mas o que é que ela queria comigo? Ela disse? — insisti.

- Não. E eu também nunca quis saber.

- Muito estranho. E Patrícia não disse a ela que me conhecia?

- Ela primeiro perguntou para a prima, claro. Aí Patrícia disse que era possível que você estivesse aqui em casa. Quando nos esbarramos, ela estava vindo pra cá pra te encontrar.

- Mas quando você disse que eu morava em São Paulo, o que foi que ela falou.

- Nada de importante. Não lembro. Logo depois nós descemos e fomos pra casa de Paty. Já cheguei fazendo sinal pra ela, perguntando se ela não sabia que você estava morando em São Paulo, essas coisas.

- E ela entrou na mentira? Velho, eu não vou ficar com essa dúvida não. Me desculpe, mas eu preciso saber porque é que essa menina veio aqui me procurar. Eu nunca tinha visto ela antes.

- É, eu sabia que mais dia menos dia isso ia acontecer. Vai lá.

- Tá, então me dá o telefone dela.

- Não tenho.

- Não tem? Qualé, Ítalo, desde que te conheço, a primeira coisa que você pergunta pra uma mulher é o número do telefone. Antes mesmo de perguntar o nome!

- Eu perguntei! Mas ela não quis me dar. Disse que se eu quisesse, teria que ser do jeito dela.

- Putz! Posso ligar pra Patrícia, então? Não vou bater na porta da casa dela a essa hora, do nada.

- Vai lá, cara, já disse. Manda ver.

- Ítalo, eu só quero saber o que ela quer comigo, tá? Mais nada, juro.

- Vai, porra!

O dia estava amanhecendo. Minha sorte é que Patrícia tinha um telefone só dela no quarto. Precisava saber como encontrar Maria. Liguei. Chamou, chamou, chamou e nada. Pensei em ir dormir e resolver essa história depois. Mas logo em seguida, pensei melhor. Não conseguiria pregar o olho enquanto não soubesse o motivo daquela menina ter ido ao meu encontro. Ítalo foi dormir e pediu para eu bater a porta quando saísse. Já estava quase lá quando resolvi tentar pela última vez. Liguei. Uma voz bocejante de sono atendeu de primeira:

- Quem é?

- Oi, Paty, é Mário. Desculpa estar te ligando a essa hora mas é que…

- Bom dia, Mário. Faz um favor? Venha aqui em casa agora.

- Tô indo. Beijos.

Nem sei se bati a porta da casa de Ítalo. Desci em um pulo. Patrícia morava no primeiro andar, apartamento 104. Quando cheguei, ela já estava na porta, de pijama. Patrícia era uma morena bonita, cabelos longos e compridos. Desde que a conheci, soube que Lula, um outro grande amigo meu, era apaixonado por ela. Nunca nem me passou pela cabeça tentar alguma coisa com Patrícia. Era incapaz de mexer em mulher que amigo meu gostava.

- Como eu faço pra encontrar Maria? — Perguntei afoito.

- É só entrar e virar a primeira à direita.

- Ela está aqui?

- No estado de nervos que ela chegou essa noite, eu não ia deixar ela ir pra casa de jeito nenhum. Vê se não faz barulho, tá?

No momento em que Patrícia pronunciava a última parte da frase, eu já estava na porta do quarto. Entrei. Maria dormia. Sentei ao lado dela. Ela abriu os olhos e perguntou:

- Estou acordada?

- Acho que sim. Por que você veio me procurar?

Ela se ajeitou na cama e se sentou. Olhou para mim de uma forma tão profunda que senti minha alma sendo perfurada. Me senti completamente exposto com aquele olhar. Era como se ela estivesse me despindo de tudo com os olhos. Como se estivesse descobrindo todos os meus segredos, desvendando todos os meus desejos, escancarando todos os meus traumas. Ela parecia fraca. Talvez fosse o sono, não sei. Usava uma camisola vermelha, que definitivamente não era dela, e que contrastava com sua pele macia e pálida. Colocando o dedo apontador na minha testa, ela disse:

- É você mesmo.

- Quem é você?

- Achei que a gente já havia se apresentado.

- O que você veio fazer aqui? Por que você estava me procurando?

- Não sei. Achei que você soubesse.

- Não sei de nada. Só sei que ontem à tarde vi você chegando pela janela do meu quarto e fiquei muito curioso para ver quem você era. Algo me chamou até aqui. Não sei o que foi.

- Espera. Tô me lembrando.

- De quê?

- Pxxxxxiiiiii. Do sonho, do meu último sonho. Você me disse que ia sentir muita saudade, mas antes de se despedir queria que eu viesse aqui pra te dizer uma coisa. O que era mesmo?

- Sonho? Que sonho? A gente já se conhecia? Você…

- Pxxxxxiiiiiii. Tô lembrando.

Silêncio.

- Eu tenho que lembrar. É importante. — ela retomou o diálogo.

- Você pode me explicar o que é que tudo isso significa, por favor?

- Há anos eu sonho com você, Mário. Praticamente todas as semanas. Procurei por você em vários lugares. Comecei a achar que você só existia lá, nos meus sonhos. Era tudo tão bonito. Os lugares, a nossa amizade, as coisas que conversávamos. Gostava tanto de sonhar com você. Acordava mais feliz, sabe? A gente falava sobre tanta coisa. Eu aprendi tanto com você. Há um mês mais ou menos, você apareceu pra dizer que a gente ia deixar de se ver. Não quis dizer por que. Mas antes de ir embora de vez, pediu para que eu viesse à casa de minha prima Patrícia e lhe procurasse. Meus Deus, era tudo tão nítido. Nem parecia sonho. Assim que acordei, passei a mão no telefone e liguei pra Paty. Perguntei se tinha alguém por aqui chamado Mário. Ela disse que sim e eu vim correndo. Quando cheguei aqui, ela me disse que você muito provavelmente estaria na casa de Ítalo, no terceiro andar. Quando eu estava indo pra lá, me esbarrei nele e a gente se conheceu. Ele me disse que você não morava mais aqui, que tinha se mudado pra… São Paulo, acho. Não me preocupei muito porque achei que você apareceria de novo em um sonho meu e daria outras coordenadas. Mas o tempo foi passando e você nunca mais apareceu. Quando eu me esbarrei em você ontem, na escada, achei que era você. Mas nos sonhos, seus cabelos eram mais curtos e Ítalo já tinha dito que você não morava mais aqui… Só lá em cima, na casa dele, quando você disse seu nome, liguei as coisas e percebi que você era você mesmo. Fiquei num estado de nervos que você não tem ideia. Nossa, você existe! E é igualzinho ao do sonho. Tirando o cabelo, claro. Mas o jeito de falar, de andar, tudo! Como isso é possível?

- Meu, Deus, que história!

- Você nunca sonhou comigo?

- Não costumo lembrar dos meus sonhos. Ítalo acha que eu não sonho à noite, diz que eu já sonho muito quando estou acordado.

- E você não lembra de mim, sonhador?

- Não, fisicamente não. Mas lá na casa de Ítalo, tive a nítida impressão de que já te conhecia há muito tempo.

- Conhece. Tem alguma coisa aí dentro de você que me conhece muito. Você me ajudou muito. Me deu esperança, amor. Tudo que eu nunca tive aqui fora. Você dizia que me amava. E que um dia, teríamos um momento juntos.

- E esse momento é agora?

- Lembrei! Lembrei o que o você do sonho pediu para eu dizer ao você real.

- O que?

- Que era pra você acabar com essa bobagem de achar que existe uma pessoa que foi feita pra você. Que isso não existe, é romantismo bobo. E que, em vez de ficar procurando a pessoa certa, que se encaixe nos seus sonhos, você deveria se doar mais e aprender a construir outros sonhos, novos sonhos, com quantas pessoas fossem necessárias. Que a felicidade está dentro de você e não nas pessoas com quem você se relaciona. Mandou lhe dizer que todo romântico é um sádico e um egoísta por natureza.

- Então o…

- É, meu amigo romântico lindo, é isso mesmo. O destino não existe. Se solte, viva sua vida, um dia de cada vez, não sofra por antecipação nem crie muitas expectativas, curta o momento e serás feliz!

- Eu quero. Eu quero construir sonhos com você.

- Oh, que lindo. Você é lindo, sabia? Mas não vai dar. Já estou atrasada.

- Pra quê? Não! Você não pode sair daqui assim. Você não pode entrar na minha vida, causar uma revolução dessas e ir embora como se nada tivesse acontecido. Tem menos de vinte quatro horas que nos conhecemos e eu tenho certeza de que você é a mulher da minha vida!

- Hum, não prestou atenção em nada do que eu disse, né? Ou melhor, do que você pediu para dizer a você mesmo. Não existem almas gêmeas, Mário. Existem pessoas com interesses em comum que se encontram e se desencontram.

- E a gente se encontrou.

- Mas vai se desencontrar.

- Por que?

- Porque eu tenho que ir. Já disse. Estou atrasada.

- Pra onde?

- Pxxxxxxiiiiiiii. Me dá um beijo?

Nos beijamos. Exatamente da maneira que todo beijo deveria ser. Não era apenas toques de lábios. Era uma entrega. Durante o beijo, era como se eu estivesse me dando por inteiro e recebendo dela tudo o de melhor. Quando nossos lábios se descolaram, Maria tombou sem cor, sem alma e sem calor. Estava morta em meus braços. Voltou a chover. Muito. Lágrimas de chuva molhavam o vidro da janela sem ninguém nos ver. Lágrimas de um temporal de sentimentos corriam por meu rosto e, enfim, eu consegui entender.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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