A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Lembranças do meu primeiro beijo: show.

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“Sabe esses dias que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na rua?” Em dezembro de 1984, eu não sabia. Faltavam três meses para eu completar doze anos e, tirando as tardes em que brinquei de casinha com Alessandra no ano anterior, não fazia muitas coisas de adulto. Sim, tecnicamente, eu era apenas um pré-adolescente apaixonado por música e futebol. Por isso, quando anunciaram um Show da Blitz na Associação Atlética da Bahia, fiquei doido.

A Blitz era uma das minhas bandas preferidas, dona das músicas que mais gostava de cantar embaixo do chuveiro. Junto ao anúncio do show, uma promoção: bastava comprar xis reais nas Casas Pernambucanas, que você ganhava o ingresso. Fui muito claro com minha mãe: — Este ano, não quero bola, nem chuteira, muito menos disco. Meu presente de Natal vai ser roupa, e das Pernambucanas — não lembro muito bem, mas dona Luzia deve ter me olhado com aquela cara de quem diz: tá doente, meu filho?

Depois de explicar meu estratagema, meus pais concordaram que eu fosse ao show, desde que Marcus, meu irmão mais velho, fosse também. Fiquei um pouco preocupado. A Blitz não era o estilo dele. Marcus já tinha quinze anos e gostava de Jean Michel Jarre, Matt Bianco, Spyro Gira e mixagens disco. Ao contrário de mim, meu big brother não tinha sido tocado pelo BRock, aquele movimento musical pop rock brasileiro do início dos anos 1980. Mas apesar das diferenças musicais, foi fácil convencê-lo a me acompanhar. Naquela época não rolavam muitos shows legais em Salvador e, passar um domingo à noite ao lado de outros jovens da mesma idade pareceu ser uma boa ideia para ele também.

Depois de “aceitar” o convite, Marcus ainda resolveu me dar aulas de como chegar em um “broto” e descolar um beijo. Não dei atenção. Minha última preocupação naqueles tempos era “curtir” com alguém. Ainda era amarradão em Jamille, embora não tivesse coragem nenhuma de dizer isso a ela. Ou talvez fosse medo de estragar a amizade. O mais provável é que tenha sido as duas coisas. Mas naquela noite, o que queria mesmo era ver o show e cantar muito com Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão.

No dia treze de janeiro de 1985, às cinco da tarde em ponto, estávamos eu e meu irmão na frente da Associação Atlética da Bahia, esperando a abertura dos portões. Vestia um tênis bamba, uma bermuda jeans e uma camisa com a letra de Egotrip, sucesso do momento da Blitz. Tudo comprado nas Pernambucanas, claro. Às seis, os portões se abriram e eu saí correndo para pegar um bom lugar em frente ao palco.

Engraçado que depois daquele dia, só voltei a um show da Blitz dez anos depois, em 1995, desta vez, no Bahiano de Tênis. E ainda mais engraçado (ou seria trágico?) é que era praticamente o mesmo show, com as mesmas músicas. É que os melhores álbuns da banda foram exatamente os três primeiros, lançados entre 1982 e 1984. Depois disso, a banda quase acabou várias vezes, mudou a formação outras tantas e nunca voltou a compor grandes sucessos.

Voltando a 1985 e à Associação Atlética da Bahia, o show começou dentro do horário previsto. E, também como previsto, eu só fazia pular e berrar a letra de todas as músicas. No meio da execução de um dos sucessos da banda, tive a impressão de ter me perdido do meu irmão. Parei de pular e de berrar para olhar em volta. Nada. De repente, percebi que ele estava ao meu lado e que eu só não o havia reconhecido porque o corpo dele tinha se fundido com o da menina que ele estava beijando e se transformado em um outro ser. Esbugalhei os olhos. Era a primeira vez que via meu irmão naquela situação. Depois de um tempo, voltei a pular e berrar, até que Evandro Mesquita começou a cantar “Longe de casa, há mais de uma semana…”.

É, foi no momento em que os acordes de “A Dois Passos do Paraíso” invadiram o campo de futebol do clube, que Marcus cochichou algo em meu ouvido. Não ouvi nada. Ele repetiu. Não entendi nada. Ele gritou: — A irmã dela quer te curtir! — ele apontava para a menina que estava na minha frente, exatamente a dois passos de mim. Não sabia o que fazer, mesmo com todo mundo cantando a plenos pulmões: “Estou a dois passos do paraíso, não sei se eu vou voltar.” Incomodado com a minha indecisão, meu irmão me empurrou em direção a ela. Houve um esbarrão. Ela virou e me olhou. Eu pedi desculpa. Ela disparou: — Só se você me der um beijo — não tive tempo de responder. Ela mesma me beijou.

Foi o meu primeiro beijo de língua. Não sei se podia ser considerado um BV (Boca Virgem), como costumam chamar hoje aqueles que nunca beijaram na boca. Quando criança, havia me iniciado na arte dos pitoques com Cynthia, uma prima apenas duas semanas mais nova do que eu. E tinha tido, dois anos atrás, os beijos no Rio e em São Paulo, além daquela experiência com Alessandra, a vizinha assanhadinha que vinha brincar de casinha no meu quarto. Mas nada, absolutamente nada daquilo se comparava ao que experimentei naquela noite. Aquela língua brigando com minha língua, roçando meus dentes e esmurrando meu céu da boca era muito melhor do que tudo o que tinha rolado com minhas primas, com a carioca Carina e com a minha vizinha. Não havia dúvida, aos onze anos de idade, eu levei um empurrãozinho, dei dois passos, cheguei ao paraíso e não queria sair de lá por nada. Tornei-me um viciado em beijo de língua. Acabou sobrando para Maria Conceição, uma menina que morava no meu condomínio e que, a partir daquele dia, ia me encontrar em algumas noites só para a gente se beijar. Não namoramos. Não havia sentimento. Era apenas beijo. De língua. Quanto ao resto do show, acho que parei de olhar, de pular e de berrar. Não lembro. Mas deve ter sido muito bom.

Depois do bis obrigatório, fomos para a frente do clube, esperar meu pai chegar. Enquanto Marcus conversava com a menina com quem ele tinha ficado, eu só queria saber de beijar. Não lembro o nome da menina que tanto beijei. Nem sei se ela me disse. Lembro que ela perguntou minha idade. Eu fiquei com vergonha de dizer que não tinha nem doze ainda. Menti. Disse que tinha catorze anos. Ela riu, disse que tinha dezesseis e achou que eu tinha a mesma idade. Me achei o máximo. Incrível como tem uma época na vida em que você gosta de aparentar ter mais idade. Ela quis meu telefone. Não dei. Ela quis marcar um encontro. Não aceitei. Desde aquela época já achava que seria difícil me relacionar com uma mulher para a qual eu havia mentido. Mais tarde, no carro, voltando para casa, meu pai perguntou como foi a noite. Eu, completamente anestesiado, não consegui falar nada. Pensar em nada. Devia estar a milhas e milhas de distância, no mundo da lua. Meu irmão me cutucou, deu um sorriso de cumplicidade e respondeu: foi show.

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