Image for post
Image for post

Essa noite eu sonhei com você. E é engraçado porque agora, assim sem mais nem menos, eu resolvi sentar em frente ao computador para escrever. A carta em si pode não ter significado algum (nem sei se se trata de uma carta). Talvez nem mesmo o sonho signifique alguma coisa. Mas existe algo entre o fato de sentar em frente ao computador e o ato de escrever. E talvez exista algo ainda mais sério entre o fato de escrever e o ato de mandar a carta (acho que se trata mesmo de uma carta). Mas também acredito que não seja nada tão sério quanto a possibilidade (ligeiramente afastada) de uma nova guerra no Oriente Médio.

A última palavra que lembro ter escutado foi: “casa”. “Qualquer coisa que me leve para casa”. O sonho tinha uma luz meio pequena. Acho que uma pequena meia luz. Estávamos a sós em um apartamento pequeno na zona sul do Rio. Talvez no Leblon. Não havia nada no sonho que caracterizasse a cidade ou o bairro, mas tenho certeza que era por lá. Talvez a luz. Talvez o som. Talvez as suas atitudes que mais pareciam fazer parte de um roteiro de novela. E eu devo assumir que prefiro as novelas que se passam no Rio de Janeiro. Ou preferia. Quando as assistia.

Você estava linda com os seus olhos azuis, embora o sonho tivesse sido todo em preto e branco. O que também não faz muita diferença porque na verdade os seus olhos não são mesmo azuis. Mas um dia você sonhou que eles eram e talvez isso tenha influenciado em alguma coisa. Talvez no mundo dos sonhos os seus olhos sejam azuis. Seus cabelos estavam mais compridos e molhados, recém saídos de um banho. Eu gostava daquilo. Não que eu ache que você esteja feia de cabelos mais curtos e secos, mas é que cabelos compridos e molhados combinavam mais com a situação. Definitivamente era um sonho romântico. Enquanto lhe olhava e admirava a sua beleza, uma música tocava na vitrola. Dessas de pick-ups antigos onde nada mais roda a não ser discos de vinil. Daquelas de som fiel, mas cheio de ruídos. Uma antiga vitrola que tínhamos comprado numa liquidação da Loja Arapuã do bairro de Ipanema. Ipanema não é a princesinha do mar, mas é de lá que vem a garota. É de lá que a minha alma canta sem morrer de saudades. É de lá que ela passa toda cheia de graça por causa do amor.

E o mais engraçado (eu sei o quanto você odeia começar um período com “E”, peço desculpas) era que você fazia tudo o que a música falava, ou melhor, você interpretava tudo o que a música cantava, só que um frame antes. Cada ato, cada gesto. E eu apenas admirava. Era como se estivesse olhando para a musa de um quadro antes de pintá-la. Era como se estivesse fitando um quadro antes de transformá-lo em poesia. Era como se eu estivesse me preparando para escrever aquela música em um instante após. Era como se eu estivesse escrevendo toda a situação, desvendando cada momento, prevendo cada atitude. Sentia-me um Deus. Um Deus que perde a sua criação. Não. Não estava amargurado ou chateado, estava em paz. Estava tranquilo, feliz. Mesmo sabendo que estava indo embora, mesmo naquela noite de temporal sem luz. Mesmo sem estarmos nus…

Chovia muito (muitas vezes eu mudo de parágrafo só para o texto não ficar cansativo). A única luz que iluminava nosso quarto-e-sala no Leblon era a dos raios dos trovões em flashes cronometrados. Ia alagar tudo de novo. A Avenida Brasil deveria estar uma loucura. A praia já devia ter chegado ao calçadão. Estava preocupado com as manchetes dos jornais sensacionalistas do dia seguinte. Elas que mostrariam um Rio de Janeiro feio e sem graça. Que transformariam mentira em desgraça, desgraça em verdade. Verdade em pesadelo. Não queria mais o Rio. Não queria mais o calor. Não queria mais o som das águas que insistiam em molhar os meus ouvidos enquanto ouviam uma tragédia que acabara de acontecer no Arpoador. Por um momento a música se perdeu, foi ficando baixinho, chegando no finalzinho, diminuindo a voz… Engraçado, lembro-me perfeitamente da letra da música que tocava. Lembro exatamente da música que tocava. Lembro do que me tocava. Não. Não era minha a música. Não, também não era minha a letra da música. Sim. Era meu o sonho. E como um ladrão sem medo de ser preso, sem nada a perder, faço daquelas as minhas palavras. Afinal elas descreviam com exata precisão o meu sonho. Foram feitas para sonhar, embalar aquele sono. Feitas para um sonho, eu suponho. E já que suponho, ponho aquelas letras em suas mãos. As letras de um sonho livre, um sonho lindo de verão. Foi assim:

Você falou por horas sem parar. Ligou tevê e Rádio. Andou a casa inteira até cansar. Tirou tudo do armário. Mas a mulher pra sempre solitária, perdeu pelo cansaço pra uma criança doce e assustada que dorme no meu braço. Sozinha você teve que aprender, aprender milhões de jogos. Agora vê se aprende a descansar e dorme do meu lado. Dorme que eu velo a noite por você. Anjos protejam o que você sonhar. Dorme que eu vou estar aqui quando você acordar.”

Não lembro se estava lá quando você acordou. Devo ter acordado antes. Mas lembro de ter acendido velas durante toda a noite, enquanto você dormia. Lembro também de ter visto alguns anjos sobrevoando o bairro do Leblon numa foto de satélite mostrada pela tevê. Lembro de dizer, enquanto você dormia, que queria muito que seus sonhos se transformassem em realidade, em vontade de se fazer realizar. E lembro de ouvir você dizer, ainda dormindo, que queria voltar para casa. Você só queria voltar para casa. — “Qualquer coisa que me leve para casa”. Estranho como essa frase não faz parte da música. Estranho como essa frase foi a que mais me marcou. Estranho como um sonho pode ser tão claro, tão nítido e ao mesmo tempo tão difícil de entender.

A letra “roubada” foi escrita por Vinícius Cantuária e Leoni. A versão “sonhada” foi a cantada por Toni Platão no álbum homônimo, lançado em 1994 pela Sony Music.

Written by

Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store