BRINCADEIRA DE GENTE GRANDE.

Image for post
Image for post

Menino brinca de quê? E menina? Hoje as coisas parecem estar bem mais confusas. Parecem. Na minha infância não. Havia regras. Tinha brincadeira de menino e tinha brincadeira de menina. Menino, por exemplo, não brincava de boneca. Já menina, não jogava bola. A não ser que fosse baleado, mas aí, quem não podia brincar era menino. Menina brincava de elástico; menino brincava de forte apache; menina fazia aniversário de boneca; menino brincava de garrafão. A gente só se unia para brincar de picula, esconde-esconde, papai-ajuda ou para ver televisão.

Mas a partir de 1980, eu resolvi quebrar essas barreiras. Se tivesse vontade de jogar baleado, jogava. Se desse na telha pular elástico, pulava. Se me dava prazer ir a um aniversário de boneca, ia. E o motivo de ter virado um transgressor aos sete anos de idade foi um só: Jamille.

A menininha branquinha, de cabelos lisos, sorriso simpático e jeito de santa me cativou desde o primeiro olhar. Eu tinha todos os motivos para querer vê-la todos os dias, mas subia as escadas e tocava aquela campainha por nada. Ou por instinto, sei lá. Qualquer coisa era menos interessante que ficar com ela. Mas quando nos perguntavam se estávamos namorando, ela falava: — Cruz credo. — coisa de menina. E eu mesmo não conseguia me ver sequer beijando Jamille. Na época, achava estranho. Coisa de menino.

O tempo passava e o carinho só aumentava. Pelo menos da minha parte. No início de 1983, porém, chegou uma nova moradora lá no prédio. Ela era dois anos mais velha que eu e quase quatro anos mais velha que Jamille. Além da diferença de idade, Alessandra era o oposto da minha vizinha linda. Em tudo. Era morena, cabelos curtos e negros, desbocada, de personalidade forte, uma pimentinha. Só não eram opostas na beleza. De um jeito muito peculiar, Alessandra também era muito bonita. Não sem motivo, as duas simplesmente se ignoravam. Coisa de menina.

Não demorou muito, fiz amizade com o irmão de Alessandra, Cláudio, que depois, descobri ser um goleiraço. Sempre colocava ele para jogar no meu time. Coisa de menino. Com o tempo, passei a ir para a casa de Cláudio depois dos babas. E as conversas com Alessandra passaram a ser inevitáveis. Gostava mais de ficar com Jamille, sem dúvida, mas não dava para negar que Alessandra era muito divertida. Numa tarde qualquer, enquanto estava em casa, esperando Jamille chegar do balé para subir, Alessandra tocou a campainha. Estranhei. Eu era amigo do irmão, não dela.

Mal abri a porta e ela já foi entrando, sem nem dar boa tarde. Foi direto pro meu quarto e começou a pegar meus brinquedos. Coisa de menina. Fiquei na porta, sem saber o que fazer. Coisa de menino. Foi então que ela perguntou:

- Você e Jamille brincam de quê?

- De um monte de coisa. — Respondi. Ela voltou a indagar:

- Vocês brincam de casinha?

- Brincamos, por que?

- E como é? Você é o pai e ela é a mãe?

- É. — Exclamei.

- E vocês fazem o que?

- A gente toma conta da casinha, faz comidinha, dá banho nas bonecas, essas coisas.

- Só? Mas vocês não namoram?

- Claro que não! — Lembrei de Jamille dizendo “cruz credo”.

- Bobos. Não sabem o que estão perdendo.

Devo ter misturado sorriso amarelo com cara de leso, não lembro. Coisa de menino. E mais para quebrar aquele silêncio mortal, do que para saber a resposta, perguntei:

- O que é que nós estamos perdendo? — Ela respirou fundo, sorriu e começou a dirigir a cena:

- Faz de conta que a gente tá brincando de casinha. Você é o pai e eu sou a mãe, tá? E você acabou de chegar do trabalho. Vai lá para a porta e finja que está chegando do trabalho.

Eu fui. Bati na porta. Ela abriu. E antes que eu pudesse entrar no meu próprio quarto, ela me agarrou e me deu um beijo. Na boca. Coisa de menina. E antes que eu pudesse entender alguma coisa, ela me jogou na cama e disse: — Agora eu vou te ensinar a brincar de casinha.

No primeiro dia, fiquei muito tímido, totalmente sem jeito. Mas com o tempo, fui me acostumando, fui gostando daquilo. Coisa de menino. Não tinha sexo, claro, mas tinha o mais próximo possível que poderíamos chegar disso. E, durante alguns meses, nos dias em que Jamille tinha balé, Alessandra ia lá pra casa, pra gente brincar de casinha. Engraçado como aquelas tardes não interferiam em nada no meu relacionamento com Jamille. Era como se eu tivesse criado uma nova fronteira. Tem brincadeira de menino, tem brincadeira de menina e tem brincadeira com Alessandra.

Antes do fim do ano, Alessandra e Cláudio se mudaram. Perdi o goleiro do meu time nos babas e as brincadeiras de casinha voltaram a ficar inocentes, com Jamille. Nunca tive vontade de passar de fase com ela. Achava que não deveria, que não era coisa para se fazer com uma menina como Jamille. O que sentia por ela era puramente platônico. Acho que veio daí uma mania que tive na adolescência: a de não sentir tesão pelas garotas por quem me apaixonava. As mais danadas me davam tesão, as mais quietinhas me davam no coração. Sabe aquela história de “essa é para casar, essa é para transar”? Hoje eu acho ridículo, mas era o que acontecia na época. Coisa de menino.

Não cheguei a sentir saudades de Alessandra. Nos dias em que Jamille fazia balé, antes dela chegar em casa, me trancava no quarto e brincava de casinha sozinho. Aos 10 anos de idade tinha aprendido a me masturbar sem saber que aquilo era brincadeira de gente grande.

Written by

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store