Cartas a Madame Ludovick

#2 — O Vampiro do Meio Dia

South Yorkshire, Inglaterra, 26 de novembro de 2015.

Olá de novo, madame Ludovick. Como vai? Espero que ansiosa para receber notícias minhas. Espero também que tenha entendido o fato de eu precisar cortar a narração da última carta ao meio. A mensagem estava ficando muito grande e eu estava muito cansado mesmo. Sabe, nós vampiros somos ativos quando acordados, mas na hora de dormir, viramos pedra. Literalmente. Não sei se a senhora sabe, mas enquanto dormem, os vampiros nem respiram. Mas isso é uma outra história. Assunto para uma outra carta. Por hora, vamos voltar à minha vida. Do ponto onde parei.

O ano era 1849. A Europa era pura ebulição política. Durante toda a década de 1840, vários levantes liberais surgiram em diversos pontos do continente. O socialismo utópico estava em voga, os proletários queriam uma divisão mais justa da riqueza e brigavam por isso. Eu estava na França, em Lyon, para ser mais específico, e participava de algumas reuniões secretas de operários. Aquele clima me excitava, não posso negar. Quando se vive muito tempo, a gente acaba ansiando por atitudes que tenham potencial para mudar a história. Em outras palavras, a gente fica doido para ver o circo pegar fogo, sabe? Perceber que as coisas estão em movimento, acontecendo.

A Europa vivia uma crise econômica sem precedentes. O povo reclamava. A segunda república francesa estava em curso há pouco mais de 1 ano. Louis Blanc era herói nacional. Mas não é para contar a história da França que lhe escrevo. Lá mesmo em Lyon, conheci um vampiro bem mais velho do que eu. Bernard era o nome dele. Ficamos amigos. Bernard era um humanista, acredite. Amava os seres humanos. E se considerava uma aberração. Dizia-se cansado de tudo. E odiava ter que matar pessoas para se manter vivo. Um dia ele me pediu para mata-lo. Uma das coisas mais tristes na vida de um vampiro é não poder dar cabo à própria vida. Vampiros ganham a vida eterna, mas sem direito a estorno.

Bernard virou vampiro com idade menos avançada que a minha, aos 23 anos. Mas há muito tempo não se alimentava de sangue humano. Por isso, tinha a aparência de um velho decrépito. É o sangue de homens e mulheres que nos mantém jovens. Podemos beber o sangue de qualquer animal, mas, se não for humano, envelhecemos como qualquer mortal. E os mais de 200 anos de Bernard estavam ali, visíveis. Aceitei mata-lo. Mas antes, resolvi contar-lhe sobre minha característica mais peculiar: o fato de eu ser um vampiro que não derretia na presença do sol e se sentia melancólico durante a madrugada. Bernard me confessou que já havia ouvido falar em tipos como eu, embora nunca tivesse se encontrado com um. Ele disse que se tratava de uma espécie raríssima e que, para existir, seria necessário que uma série de fatores se unissem em um encadeamento de acontecimentos bastante improváveis. Para começar, a transformação completa deveria acontecer no exato instante em que o sol nasce. E tem mais. A mordida teria que ser dada por um vampiro de linhagem pura, ou seja, que tenha sido transformado pelo próprio conde drácula. E não é só isso. Após a transformação se completar, o vampiro que transmitiu a maldição, teria que morrer queimado pelo mesmo sol. Assim é fácil de entender o motivo de eu ser o único vampiro do meio dia vivo nos dias de hoje. Pelo menos até onde eu sei. Foi muita sorte. Ou azar. Algo como ganhar na mega sena acumulada sozinho. Ou perder o jogo no minuto final com gol de um goleiro batendo tiro de meta. Ainda não decidi se esse meu raro estigma é uma coisa boa ou ruim.

Mas perceber-me tão raro me fez sentir especial. Deixei de achar que era uma anomalia. Passei a acreditar que era um ser único. Gosto de ser assim. É mais difícil para se alimentar, verdade. Durante o dia, as ruas estão sempre muito claras. Há sempre muita gente nelas. O policiamento é mais ostensivo. Mas em compensação, por precisar encontrar soluções para não deixar de me alimentar, acabei ficando mais criativo. Tendo que praticar um certo jogo de cintura, como vocês gostam de falar aí no Brasil. Depois de matar Bernard levando-o para um passeio diurno pelo mar anil da Côte D’Azur, passei o resto do século XIX perambulando pelo sul da Europa, leste da África, Ásia, Oceania, ilhas do Pacífico. Viagens incríveis, momentos inesquecíveis, pessoas fantásticas, corpos deliciosos, sangues saborosíssimos.

Com a chegada do século XX, achei que estava na hora de uma mudança mais radical. No endereço e no estilo de vida. Fui para a América. Cheguei na the land of opportunities através de Nova York, onde vivi grandes anos. A big apple é, sem dúvida, um dos meus lugares favoritos. Uma cidade que não dorme é ideal para qualquer vampiro. Mesmo para um vampiro diurno como eu. Estava lá por exemplo, no crack da bolsa em 1929. Confesso que me aproveitei da situação e mordi muitas pessoas desesperadas pela falta de um horizonte na vida. Homelesses. Não que o sangue dessas pessoas fosse mais gostoso. Pelo contrário. Normalmente vítimas desesperadas deixam o sangue com um gosto horrível. Mas havia algo em mim que se deliciava ao ver aquelas feições aterrorizadas, desgraçadas, moribundas. Pode me julgar, dizer que não presto. Que sou um filho da puta. Sou mesmo. Não nasci vampiro. Me tornei um. E não vou negar quem sou. Sou mau. Sou vil. Faço parte da pior espécie que anda sobre a terra.

Mesmo assim, fiquei chocado com as cenas que vi dos combates e dos campos de concentração durante a segunda guerra mundial. Estarrecido. Vampiros fazerem o mal é uma coisa normal. Se espera isso deles. Mas seres humanos se destruindo daquela forma? Não conseguia entender. Fiquei tão perplexo com tudo aquilo, que resolvi me retirar por um tempo. Fui para a Cordilheira Teton, em Wyoming, no centro oeste americano. Me enfiei em uma caverna e dormi por 20 anos. Acordei em 1960 e devia estar horrendo. Não sei da minha aparência porque não consigo me olhar no espelho. Outra maldição. Mas sei que não estava bem pela reação das pessoas nas ruas. Nada que o sangue de 2 bois, 3 lobos, 1 urso e uns 10 ou 15 caçadores, além de um banho, não tenham resolvido.

Já me sentindo melhor, decidi conhecer a costa oeste americana. De onde se falavam maravilhas àquela época. Cheguei ao norte da Califórnia no natal de 1963. Apesar da recém e prematura morte do líder político John Fitzgerald Kennedy e o clima de velório em toda a américa, o lado “pacífico” dos Estados Unidos parecia sofrer menos. Já em 1964, fiz uma viagem alucinante por toda a costa californiana. Começando pelo Condado de Del Norte e chegando até San Diego. Passando por Humboldt, Mendocino, Sonoma, onde conheci Areta, uma mexicana incrível que passou a me acompanhar naquela trilha. Areta foi a única pessoa que desejei transformar em vampira durante toda a minha existência. Mas ela tinha um sorriso e um brilho no olhar que… achei que seria muito egoísmo da minha parte. Viu? Até que nós vampiros sabemos ser condescendentes, às vezes. Juntos, eu e Areta fomos a Marin, San Francisco, San Mateo, Santa Cruz, Monterey, San Luis Obispo, Santa Bárbara, Ventura, Los Angeles, Orange e San Diego, onde terminamos o tour absolutamente extasiados já no inverno de 1965. Naqueles anos, os beatniks tinham invadido a costa oeste americana com ideias libertárias e pacíficas que valorizavam a comunhão entre as pessoas, o sexo livre, o consumo de drogas e o total desapego ao american way of life. Kerouac, Huncke, Holmes, Ginsberg… essa galera escrevia e vivia em uma unbelieveble crazy way of life. Foram praticamente os pais do movimento hippie, palavra que li, pela primeira vez, em um jornal de San Francisco. E que depois virou um movimento ainda maior, nomeado de Flower Power.

Havia muitos festivais de música por toda aquela região. Havia algo de grande e potente acontecendo no mundo das artes. Havia uma efervescência. Em um desses encontros musicais, no Monterey Pop Festival, em junho de 1967, conheci bandas incríveis, como The Who, The Mama’s & The Papa’s, Beach Boys, Beatles. Era o início do que ficou conhecido como o verão do amor. Toda aquela loucura teve seu ápice em um festival de música e artes que se auto-definia como uma exposição aquariana: 3 dias de paz e música. O Festival de Woodstock aconteceu na costa leste, em uma fazenda na cidade de Bethel, no estado de Nova Iorque. Fiz a viagem da Califórnia até lá de carro, passando pela mítica Route 66 e acompanhado, é claro, pela minha amada Areta. Me sentia um verdadeiro beat, underground total. Durante o festival, foi muito divertido ver artistas como Joan Baez, Santana, Grateful Dead, Janes Joplin, Joe Cocker e Jimi Hendrix em apresentações inesquecíveis. Foram 3 dias de muita cerveja, heroína e sangue, claro. Eu me diverti como nunca havia me divertido em toda a minha absurdamente longa presença neste planeta.

Depois de toda aquela loucura, já no início da década de 1970, o clima era mais de ressaca do que de realização. Foi quando Areta resolveu voltar para o México. Achou que estava na hora de acabar o recreio e voltar a ter uma vida mais normal. Eu entendi. Ela me chamou para ir junto. Eu não quis. Achei que, se fosse, iria acabar transformando-a em uma vampira também. E eu não queria que isso acontecesse. Areta nunca soube nem desconfiou que eu era um príncipe das trevas. É que, como sou um vampiro diurno, fora algumas manias incomuns, até que consigo me passar por um ser humano normal. Já de volta à Califórnia, em 1978, ocorreu mais um encontro que mudou os rumos de minha vida.

Joe era um hippie e ex-fuzileiro naval, que havia estado na interminável guerra dos yankes contra os vietnamitas. Não sem razão, um cara muito louco. Um dia, Joe começou a me falar sobre um lugar chamado Bahia, para onde ele tinha ido logo depois que foi dispensado pelo exército. Disse que ao norte da capital, em um lugar conhecido como Arembepe, havia uma comunidade hippie espetacular. Segundo ele, eram pessoas que tinham realmente decidido abandonar o sistema e viver em liberdade total, em transe total e em total harmonia com a natureza. Joe me contou sobre a beleza do lugar, um verdadeiro paraíso na terra, falou sobre como conheceu gente simples e gente importante como Mick Jagger e Janis Joplin, que passaram temporadas por lá. Ele dizia que a Bahia era um lugar mágico, encantador, cheio de mistério e de uma beleza difíceis de definir, mas muito fáceis de sentir. Ele gostava de mostrar o pelo do braço arrepiado sempre que falava daquele lugar.

Fiquei intrigado. E muito curioso com aquele el dorado descrito pelo hippie ex-combatente. Já tinha viajado pelo mundo inteiro, mas nunca havia ido à América do Sul. Queria saber mais. E sempre que encontrava Joe, perguntava a respeito. Um dia, comecei a questioná-lo sobre o motivo dele ter deixado a vida incrível que levava em Arembepe. A resposta foi sensacional. Joe me disse que felicidade demais pira. E que pirar muito não é bom. Era tudo o que eu precisava ouvir para decidir conhecer a Bahia. Pode não parecer, mas em cada pescoço, em cada pulso, em cada veia, o que todo vampiro busca fisgar é a felicidade que os homens sentem.

Na noite do dia 31 de dezembro de 1984, cheguei à aldeia hippie de Arembepe, depois de uma longa viagem. Dois anos antes, em 1982, comprei uma moto em San Diego e pilotei por toda a costa mexicana até chegar em Querétaro, no estado de Chiapas. De lá, atravessei a Guatemala e cheguei a Belize, já na costa atlântica. Fui circundando o litoral do Mar do Caribe até Colón, no Panamá. Na capital, eu vendi a moto e comprei uma passagem para Belém do Pará. E de lá, outra para Natal. Na capital do Rio Grande do Norte, em um bairro chamado Santos Reis, roubei um barco e zarpei para a Bahia.

Margeando a costa, conheci praias belíssimas como Pipa, Cabedelo, Itamaracá, Porto de Galinhas, Tamandaré, Maragogi, Ponta Verde em Maceió, Gunga, Coruripe, Pirambu, Mangue Seco, Baixio, Itacimirim e, finalmente, Arembepe. As praias brasileiras são tão exóticas e lindas quanto seus nomes.

Ao chegar na Aldeia Hippie, vi muita movimentação. Havia fogueiras, tochas, muita música, gente dançando. Minha excitação era tão grande, que nem ancorei o barco. Me joguei a uns 500 metros da praia e fui nadando. Até minha costumeira melancolia noturna resolveu tirar folga. Foi o réveillon mais louco que já vivi. As pessoas se entregavam ao prazer de tal forma, e tudo se harmonizava tão bem. Havia um misto de insanidade e profunda paz no ar. Não sei se adormeci ou se saí de mim pelo exagerado consumo de todos os entorpecentes disponíveis. O fato é que acordei no dia 2 de janeiro de 1985 em uma praia de um bairro chamado Pituba, em Salvador. A uns 60 quilômetros de distância da aldeia.

Fiquei extasiado. Nunca tinha visto um céu tão lindo, uma praia tão perfeita. Nunca tinha sentido uma sensação tão agradável. Eu me sentia tão bem quanto nunca. Eu estava no paraíso e ele não ficava na aldeia hippie de Arembepe como dissera o velho Joe. Em menos de uma semana, comprei uma casa na Rua Amazonas, nº 569. Lugar onde vivi grandes momentos. E são algumas dessas experiências vividas na boa terra que vou começar a relatar à senhora. Os verões que passei por aí em 1985, 1986 e 1987 foram inesquecíveis. Em todos os aspectos.

Sabe, madame Ludovick, não posso reclamar da minha vida. Fui forçado a viver por toda a eternidade com 27 anos. E é assim que tenho vivido desde então. Eternamente jovem. Com muita intensidade, diversão e loucuras. Forever Young. Se um dia a vida eterna vai cansar, não sei. Mas até lá, só posso dizer uma coisa: viva a imortalidade!

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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