Cartas a Madame Ludovick

Dorset, Inglaterra, 09 de dezembro de 2015.

Como vai, madame Ludovick? Fiquei muito feliz ao receber sua carta. Que bom que a senhora leu minhas missivas. E que bom que gostou. Estou me sentindo muito bem por estar dividindo minha história com uma pessoa tão especial. Às vezes acho que já lhe conheço. Por sua forma de encarar a vida, por suas atividades, por seu jeito de viver, por tudo que escreveu… Mas enfim, nossas empatias não estão entre os temas que desejo abordar hoje.

Vou me ocupar e me deleitar em responder suas dúvidas e questões. Acho importante falar a respeito de alguns mitos que circundam as vidas dos vampiros. Vamos lá. Na ordem. Direto e reto.

1 — Sol: é verdade. Vampiros derretem ou até mesmo explodem quando entram em contato com a luz do sol. Por tudo que já lhe contei, sou diferente. À noite, tenho sono, fico cansado e melancólico. Durante o dia, é outra coisa. O sol me energiza de alguma forma. Fico mais forte, entusiasmado e muito excitado. Adoro praia.

2 — Alho: mito. Não sei quem inventou isso. Talvez o Abraham Bram Stocker. O do livro sobre Drácula. Conheci Stocker. Acho que em 1880, por aí. Estava viajando pelo norte da Escócia quando ouvi falar de um autor irlandês que estava pesquisando sobre vampirismo e pretendia lançar um livro a respeito. Na época se falava muito em monstros e lobisomens e bruxas e frankensteins. Era moda. Fui a Londres encontra-lo. Ele havia conhecido pessoalmente o Petr, um vampiro checo muito meu amigo. Conversamos por longas horas. Ele não desconfiou que eu era vampiro. Fiz questão de encontra-lo durante o dia, na rua, para não suscitar suspeitas. Mas ele sabia a respeito de Petr, sabia que vampiros eram reais. Insisti em leva-lo ao leste europeu. Achava que para a obra que estava escrevendo, era crucial que ele conhecesse a Romênia. Mas ele não quis. Escreveu o livro sobre Drácula sem nunca ter ido à terra do conde. Bram Stocker era muito bem informado, fez uma ótima pesquisa, entrevistou vampiros de verdade, mas se deixou levar mais pelo folclore do que pela realidade. E romanceou demais também. Mas não o culpo. Essa postura deve ter ajudado a vender mais livros. E a manter nossa mística. Mas estava falando sobre alhos, não bugalhos. Adoro alho. Acho uma delícia. Frito então… Quase tudo que como leva alho.

3 — Água benta: verdade. Esse troço machuca muito. Dificilmente mata. Só se a gente cair em um tonel de água benta. Mas o cara que abençoou a água, tem que ter uma fé muito forte, além de ser um espírito muito elevado. A maior parte das águas ditas bentas não fazem nem cócegas.

4 — Estaca: mito. Só existem duas formas de se matar um vampiro, por derretimento através da luz do sol ou da água benta ou por decapitação. O resto, a gente sofre um pouquinho, mas nada que o sangue de um humano de 70 quilos não resolva rapidinho.

5 — Espelho: verdade. Nossa imagem não se reflete no espelho. Há séculos não vejo meu rosto. Às vezes pergunto para uma pessoa como ela me descreveria, só para lembrar como sou. Cada um fala uma coisa. É engraçado como os humanos deixam que o sentimentalismo influencie no racional. Vocês não conseguem traduzir friamente o que veem. Mas essa história do espelho é terrível. A gente tem que evitar. As pessoas ficam assustadas. E na hora da mordida, a vítima não pode estar nervosa. A adrenalina mexe com o sabor do sangue. Fica com um gosto horrível. E faz mal pra gente também, envelhece. Nossa refeição tem que estar se sentindo absolutamente confortável, segura e confiante antes de ser atacada. Por isso normalmente seduzimos quem queremos morder.

6 — Bala de prata: Isso é para lobisomens. E como todo mundo sabe, lobisomens não existem. Existem?

7 — Morcegos: ridículo! Nenhum vampiro vira morcego. Aliás, não temos nada a ver com morcegos. A não ser o fato de preferir dormir durante o dia. Com exceções, claro. Agora, existe uma espécie de morcego que, além de ficar acordada durante a noite, também se alimenta de sangue. Mas, até onde sei, esses ratos voadores preferem morder animais e não seres humanos. Me disseram uma vez, que essa espécie de morcego surgiu porque um deles foi mordido por um vampiro bêbado e não morreu. Ele teria adquirido o vírus. Não acredito muito nessa história, mas, de qualquer jeito, é bom ficar longe dessa espécie.

8 — Dentes: verdade. Assim como o sangue nos olhos. Mas só acontece quando ficamos excitados, na iminência de morder uma vítima. Neste momento de puro deleite, os caninos crescem e os olhos ficam vermelhos. Posso lhe garantir, não é uma cena muito boa de apreciar.

9 — Aparecer e desaparecer: mito. Não desaparecemos no ar. Mas temos uma velocidade absurda, muito próxima à de um avião supersônico. Por isso, muitas vezes, damos a impressão de que sumimos. O olho humano não consegue acompanhar a nossa velocidade extrema.

10 — Voar: além de uma altíssima velocidade, temos a capacidade de pular muito alto, mas não voamos.

11 — Unhas: são como garras. Fortes e muito afiadas. Mas, para funcionar, você não pode cortar. Nunca. Houve uma época em que era comum homens terem unhas grandes. Hoje, cada vampiro encontra uma desculpa para manter pelo menos um dedo com unhão. No meu caso, toco violão. As vampiras não têm este problema. Mas não gosto muito de usar minha unha em vítimas. Com a boca é mais gostoso. Por falar nisso, quem gostava muito de usar as unhas em suas vítimas, era Lestat. Sim, aquele mesmo. O personagem dos livros de Anne Rice. Pouca gente sabe, mas ele existiu. Ele e Louis, aquele que dá a entrevista. Na verdade, a entrevista foi dada à própria Anne. Os livros dela são baseados em fatos reais. É claro que Anne não ia colocar isso nos romances. Iriam chama-la de louca. Conheci Anne em uma festa dada por Lestat. Parabenizei-a pelo excelente trabalho. Ela romanceou muito bem a história.

12 — Sangue humano: é o que nos mantém jovens e dispostos. O sangue dos outros animais mantém a gente vivo, mas não evita o envelhecimento. Além disso, o sangue humano é mesmo mais gostoso. Na minha opinião, entre os animais, o que tem o sangue mais saboroso é o coelho. Já o pior de todos é o do gato. Gatos nos reconhecem. Sabem quem somos. Quando aparecemos, eles ficam logo estressados, encrespados. Isso deve influenciar no gosto do sangue. Odeio gatos. Adoro mata-los.

13 — Beijo da morte: mito. Não sugamos a vida ou a alma de ninguém. Bebemos o sangue, só isso. E o melhor lugar para obter um sangue quente, em abundância e de forma discreta é a jugular. Quando aproximamos nossa boca à boca de outra pessoa, é porque realmente queremos beijá-la, só isso.

14 — Amor: parecemos seres insensíveis. Mas só parecemos. Já parou para pensar quantas vezes vocês humanos também parecem ser desprovidos de amor? É claro que nós amamos. Aliás, o amor é o que mantém a existência dos vampiros até hoje no mundo. Só o amor faz com que a gente queira transformar uma pessoa em vampiro. Dar a alguém a vida eterna, a possibilidade de viver ao nosso lado para sempre é uma grande prova de amor. É através do amor que nos multiplicamos. Os vampiros não odeiam a humanidade, pelo contrário, dependemos de vocês. A humanidade é que odeia os vampiros. Não sem razão, admito. Somos apenas seu lado mais selvagem e cruel. E vocês são muito narcisistas para encararem sua metade animal. Mas sim, amamos. E matamos, assim como vocês.

Bom, espero que tenha conseguido responder a contento todas as suas perguntas. Gostaria de pedir permissão para, a partir da próxima carta, começar a contar as histórias que vivi aí em Salvador. Até lá.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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