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Alma não é de plástico, nem de alumínio ou de papel. Mas será que dá pra reciclar? Dormiu mais tarde aquela noite, além do normal. Buscava respostas para perguntas que nunca havia feito a si mesmo. E nem sabia se tudo aquilo era realmente importante. Ou se pelo menos era mais importante do que a reunião de trabalho que tinha na manhã seguinte. Toda segunda-feira era a mesma coisa. Reunião logo cedo com representantes de todos os setores da empresa. Quase nunca dava em alguma coisa. Quase sempre dava em nada. Mas todos iam, sempre. Pontualmente.

Seis horas da manhã. O celular grita em cima do criado mudo. Ninguém para abrir a cortina e deixar o sol entrar. Quem sabe assim as coisas fizessem mais sentido. Ele finge abrir os olhos, mas o celular não percebe. E continua a gritar. Um dedo é tudo o que ele precisa para alcançar o silêncio de novo. “Não pensa. Levanta e faz. Se parar para pensar, acaba não fazendo. A gente adora encontrar desculpas para procrastinar aquilo que não gostamos de fazer” — disse um colega de trabalho depois de um happy hour, enquanto entrava no carro. Desde então, acreditava que o remédio para aturar o cotidiano era a ausência do pensamento. Mas por que então havia ido dormir com tais questões na cabeça?

Até levantar o corpo sobre a cama desfeita, demora um pouco. Até chegar ao banheiro para mijar, parece fazer parte de uma cena em slow motion. Até chegar à geladeira e beber água, é como se tivesse todo o tempo do mundo. Depois que a primeira gota vinda do chuveiro toca-lhe a testa, muda-se o ritmo. É como se alguém apertasse o botão de fast forward do controle remoto. E o controle sobre a vida se esvai como desce pelo ralo a água molhada de sabão.

Tudo agora é tão rápido que ele nem percebe o café sem açúcar, o pão meio duro, o queijo fora da validade, a janela entreaberta, a possibilidade de chuva ou a carta que jogaram por baixo da porta. É tudo tão veloz, tão rápido, tão iminente, que ele só se percebe acordado no trânsito, nervoso com a morosidade do motorista à frente. Tudo é urgente, mas algumas pessoas parecem não perceber. Como podem não estar com pressa? Mão na buzina, pé no acelerador, cabeça perdida. Sem pensar. Porque, se pensar, não faz. Corta os outros carros pela direita, não dá passagem nem sinal. Busca sempre a faixa mais livre, o caminho mais curto, a via mais veloz.

Chegando ao Centro Empresarial, não acredita no tamanho da fila do elevador. Por que todas as pessoas têm a mania de querer chegar ao trabalho na mesma hora, todos os dias? Não. Não pode pensar. O pé bate no chão freneticamente. A respiração vira sinal de tormento. Olha o relógio 10 vezes por minuto. Não para ver as horas. É apenas um movimento mecânico. Ele não consegue evitar. Trabalha no último andar. E até chegar lá, finge ler as notícias inúteis que passam numa pequena tela de computador acoplada a uma das paredes do elevador. É o primeiro a chegar, como sempre. E mesmo faltando 10 minutos para o início da reunião, fica aflito ao não ver ninguém. Enquanto espera, adianta o trabalho, toma um café, lê e-mails. Ficar parado é para quem não tem pressa.

O dia todo é uma correria. Parece estar ansioso para chegar a algum lugar. Parece querer dar conta de tudo logo. Para sobrar mais tempo. Para fazer algo que realmente valha a pena. Mas não é nada disso. A rotina havia tomado conta do seu corpo. Do seu corpo e da sua mente. Corria por correr. E, quanto mais ele corria, menos tempo tinha. Mesmo em casa, depois do trabalho, fazia o jantar depressa, comia rápido, não conseguia ficar parado em um único programa de tevê e zapeava, zapeava, zapeava sem parar. E ao ler um livro, já na cama, engolia letras, pulava palavras, saltava páginas, não entendia patavina e ia dormir exausto, como se tivesse acabado de disputar dez maratonas em sequência.

No dia seguinte, celular grita no criado mudo, câmera lenta até o chuveiro, correria a partir daí. Mas antes de sair de casa, no afã de alcançar o elevador, tropeça na carta que jogaram por baixo da porta no dia anterior. Enquanto o elevador não chega, em um momento único de lucidez, ele pega a carta, procura o remetente e se espanta ao ler o nome de uma antiga namorada da época da faculdade. Curioso, rasga o envelope; apressado, começa a ler; distraído, perde o elevador; impressionado, volta para o apartamento; sem pressa, afrouxa a gravata, tira os sapatos, joga longe o paletó e senta na poltrona de frente para a janela.

Na carta, a antiga namorada dizia que estava de volta à cidade depois de muitos anos morando no exterior, que gostaria de reencontrar a turma, mas só tinha o endereço dele. E como quem escreve um livro de memórias, lembrou da época em que namoravam, dos planos que fizeram, de como era bom ficar sentados ali, naquela poltrona, sem fazer nada, curtindo uma música e um baseado enquanto riam da pressa sem sentido da humanidade. Falou da promessa que fizeram de que, não importa o que acontecesse, jamais entrariam naquela paranoia, não deixariam se levar por aquela correria insana. Confessou que o pacto firmado de ter sempre tempo para pensar na vida, ler, sair com os amigos e se divertir tinha feito dela uma pessoa melhor.

E depois de ler tudo aquilo, com os olhos vidrados no horizonte, finalmente fez, pela primeira vez desde a partida da antiga namorada, o que prometera fazer sempre: pensou na vida; na correria; no ponto de chegada, que também era o ponto de partida; no vazio que não se preenchia, mesmo com a tarefa cumprida. E se perguntou onde iria chegar com tamanha velocidade. E se o lugar que iria chegar era mesmo o lugar onde gostaria de estar. E assim, ele ficou todo o dia. Pensando, lembrando, vivendo. Sem pressa. Descobriu que corria porque não sabia onde queria chegar. E que a alma realmente não é de plástico, de alumínio ou de papel, mas que, de tempos em tempos, merece, precisa e deve ser reciclada.

E no dia seguinte, substituiu a pressa pela vontade de chegar a algum lugar. Mas que lugar? Perdeu a pressa, ganhou uma dúvida. Mas tinha a certeza que depois de perder tantos anos correndo, finalmente ele tinha dado um passo à frente.

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