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Oportunidades são como portais em filmes de ficção científica: em muitos roteiros, só aparecem uma única vez. E se você não aproveitar, é melhor que não se arrependa depois. Em 1985, o meu melhor amigo na escola era Igor. Estávamos na sexta série, que hoje é sétimo ano e que, na época, minha mãe insistia em chamar de segundo ano ginasial. Uns dois meses depois do início das aulas, Igor se apaixonou por uma menina chamada Maria Verônica, que era de outra turma e naquele ano foi eleita Miss Teresa de Lisieux, recebendo o cetro e a coroa de Ingra Liberato.

Quase tudo o que Igor tinha para conversar era sobre Maria Verônica. Como é bonita, como é inteligente, como é sensível, como é tudo o que um cara pode querer na vida, ele escrevia e dizia e repetia, repetia, repetia. De tanto ouvir Igor falar da miss, comecei a prestar atenção e perceber que ela era realmente linda. Não demorou muito e lá estava eu, apaixonado pela mesma garota que o meu melhor amigo. Como é bonita, como é inteligente, como é sensível, como é tudo o que um cara pode querer na vida, comecei a escrever e dizer e repetir. Mas só para mim. Ninguém mais podia saber.

Não poder conversar com o meu melhor amigo sobre aquilo, era chato na maioria das vezes, mas não posso negar que cheguei a me divertir um pouco com a situação. Comecei a cantar um trecho de uma música de Lulu Santos, que fazia sucesso na época, todas as vezes em que ele começava a falar de Maria Verônica. O refrão de “Certas Coisas”, diz:

“Eu te amo calado, como quem ouve uma sinfonia de silêncio e de luz. Nós somos medo e desejo, somos feitos de silêncio e som. Tem certas coisas que eu não sei dizer”

O engraçado é que a canção servia pra nós dois. Para ele, que não conseguia se confessar, e para mim, que não tinha nem com quem desabafar. Passamos muitas tardes conversando sobre Maria Verônica depois de fazer dever e estudar. Conversas intermináveis.

No ano seguinte, 1986, duas coisas muito importantes aconteceram: Igor mudou de escola, foi para o Anchieta, e Maria Verônica mudou de sala, veio para minha turma. Nas primeiras semanas vivi um misto de euforia e tensão, alegria e solidão, agonia e vibração. Durante o ano, à medida em que ia me afastando de Igor, ia me aproximando de Maria Verônica e percebendo que o que sentia por ela jamais seria correspondido. Ela sentia por mim uma profunda amizade e fazia questão de deixar isso muito claro. Mais uma vez, me conformei com a beleza silenciosa do amor platônico. “Eu te amo calado…”.

Mas é em 1987 que aparece o portal, que acontece a história que merece ser contada. Estávamos na oitava série e não posso dizer que ainda estava completamente apaixonado por Maria Verônica. Gostava dela ainda, tudo bem, mas não era nada que me impedisse de começar a ficar com outras garotas, por exemplo. A partir daquele ano, passamos a estudar pela tarde. O Teresa de Lisieux só disponibilizava turmas matutinas até a sétima série.

Em um dia qualquer, perto do final da aula, o dia já quase noite, Adriana, uma colega não sem razão apelidada de Baixinha, sentou no braço da minha carteira e cochichou:

- Maurício, colega do irmão de Véu [ela chamava Maria Verônica de Véu], chamou ela para ir ao cinema hoje. Mas ela me disse que só vai se você quiser.

- O que? Como assim? — estranhei.

- Mário, acorda, Maria Verônica disse que só sai hoje com Maurício se você deixar que isso aconteça. — ela enfatizou.

Tremi mais que vara verde. Não sabia o que dizer, o que fazer. Como a aula já estava no final, peguei minhas coisas e saí pela porta da sala. Sem dizer nada. No caminho até o ponto de ônibus repetia mentalmente: covarde! Covarde! Covarde! Covarde! Covarde!

O portal abriu e se fechou e eu não fiz nada. Fiquei estático. Aquilo me deu uma raiva que não me deixava mais raciocinar. E o pior é que não sabia como agir depois de ter me decepcionado comigo mesmo. Deveria voltar? Deveria sair correndo? Me jogar na frente dos carros? Mudar de escola? Enquanto esperava o ônibus, pensava em tudo e nada me satisfazia. O Ribeira-Pituba demorou mais do que o normal para chegar. Com certeza porque eu saí mais cedo da aula. Mas na hora não pensei nisso. Era pura impaciência. Um bom tempo depois, já sentado no banco do ônibus, fechei os olhos. Alguns minutos se passaram e senti uma mão encontrar a minha. Abri os olhos. Maria Verônica estava sentada ao meu lado. Não que aquilo não fosse normal. Éramos companheiros de ônibus na volta para casa também. Mas depois de tudo o que tinha acontecido… Não sabia se ficava com vergonha ou feliz. Quase não acreditei. E balbuciei:

- Verônica? Mas você… você não… você não ia…

- Você não gosta de mim?

- Não é isso, é que…

- Por você tudo bem se eu sair com outro cara?

Respirei fundo. Ela se levantou e puxou a cordinha. Estava na hora do ponto dela. Mas não ia deixar outra chance escapar. Fui atrás, soltei junto, caminhei ao lado. Segurei ela pelos braços e comecei a falar ali mesmo, no meio da rua:

- Eu gosto de você. Claro que eu gosto de você. Há mais tempo do que você imagina. Mas não acho justo ser responsável pelo que você vai fazer da sua vida. Eu não tenho muito a oferecer. Maurício é mais velho, tem carro, tem grana. Eu não. Eu só tenho a oferecer o que eu sinto por você. E eu gosto muito de você. De verdade. E gosto tanto, que não me vejo no direito de decidir o que é melhor pra você. Não é que tanto faz. Mas é que pra mim, o importante é que você fique bem. Sim, eu quero que você saia com Maurício. Se isso for te fazer feliz. E não, eu não quero que você saia com Maurício. Se isso for te fazer mal. Eu gosto muito de você pra ser tão egoísta.

Ela não disse nada. Em vez disso, gelou minha espinha com um abraço, furou meus olhos com um olhar marejado, molhou minha boca com um beijo e lançou minha alma ao espaço. Era como se estivesse chegando na lua, em Marte, em Plutão ou em qualquer outro planeta do sistema solar. Só sabia que meus pés não estavam no chão. Eu voava, levitava ou qualquer outra coisa que faça a gente ir para as nuvens. Podia sentir o vento no meu rosto, cada vez mais forte, o frio, depois os pingos… Que me acordaram. Estava chovendo e eu já havia perdido o meu ponto. Levantei rápido, puxei a cordinha e saltei do ônibus. No caminho pra casa, tomando chuva, continuei repetindo mentalmente: covarde! Covarde! Covarde!

Ah, no outro dia, na escola, Adriana veio me falar que Maria Verônica tinha ido ao cinema com Maurício e que ela gostou muito, que teve uma noite muito divertida. Naquele momento, resolvi esquecer Maria Verônica e partir para outra, com a certeza de que na próxima vez que um portal aparecesse, eu teria que me jogar com tudo. E talvez isso explique um pouco todas as aventuras e desventuras amorosas que vivi depois. Mas aí já são outros quinhentos, outras histórias.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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