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Nunca fui muito ligado em astrologia. Não leio horóscopo. Sei que sou pisciano. E sei que tenho ascendente em escorpião por pura curiosidade passageira. Em 1987, quando ouvi Renato Russo cantar “nunca brinque com um peixes de ascendente escorpião” em Faroeste Caboclo, corri para saber se eu também era do tipo vingativo. Sou. Fora isso, nada. Não sei da conjunção da lua, do alinhamento dos planetas, do posicionamento das estrelas. Sei que nasci em um sábado de carnaval, à noite, vizinho à Associação Atlética da Bahia, na hora do baile começar. E sei que isto diz muito mais a meu respeito que qualquer mapa astral. Sim, meu signo é canto, meu ascendente é pulo, sou filho do carnaval.

Durante a minha infância, Carnaval era sinônimo de fuzarca. Fui a todos os bailes infantis possíveis e durante três dias da folia, acompanhava minha família até o apartamento de uma tia na Avenida Sete de Setembro, na altura das Mercês. De lá de cima, pela janela, acompanhávamos o desfile dos blocos. Quando estava chegando a turma dos Corujas, descíamos para ver meu pai e meus tios de perto. Naquela época, Os Corujas, assim como Os Internacionais, era um bloco em que só saíam homens. Todos fantasiados. Roupas pesadíssimas para pular o Carnaval, mas que depois cabiam muito bem em minhas brincadeiras de faz de conta. Este ritual aconteceu até eu completar dez anos de idade, em 1983. Depois deste ano, meu pai desistiu de brincar o Carnaval e passamos a viajar durante os dias da festa.

Em 1987, eu ainda não tinha idade suficiente para frequentar a folia momesca sozinho, mas a promessa de mais uma viagem durante os dias da maior festa popular do planeta, estava me deixando louco. Consegui armar uma situação em que iria para a rua acompanhado de meu irmão mais velho, Marcus, e um bando de amigos. Depois de dias de conselhos, praticamente um curso intensivo de como se manter longe das confusões, fui liberado. A partir daquele ano, não dependia mais de meus pais para pular o Carnaval. Entrei para o time dos foliões independentes. Impossível estar mais feliz.

O esquema para aproveitar a festa mudou totalmente a partir daquele ano. Eu ia completar catorze anos na terça-feira de Carnaval, por isso, tinha que acompanhar os mais velhos. No final da manhã, íamos para o Campo Grande, ver a saída dos blocos. Mais tarde, rumávamos para a Carlos Gomes, usando as ruelas que fazem ligação com a Avenida Sete para vermos os trios desfilando. Nesse ritmo, chegávamos à Praça Castro Alves, mas ficávamos olhando de longe. O ponto mais famoso do Carnaval Baiano também tinha fama de perigoso e eu não podia me meter em confusão. Era comum subirmos a Carlos Gomes de volta atrás do trio do bloco que havia aberto o desfile. Depois descíamos para a Barra.

A festa tinha descido a ladeira um ano antes e virou ponto de encontro dos mais jovens e descolados. O problema é que, naquela época, não havia uma programação definida para o bairro. A gente descia, encontrava um monte de gente, conversava e ficava dançando na batida de alguma caixa de som gigante que alguém levava, até que algum trio elétrico desse as caras. Só a partir do ano seguinte é que a Barra entrou definitivamente para o circuito oficial da festa.

Vinte e sete de fevereiro de 1987. Sexta-feira. Cheguei de ônibus ao Vale do Canela, quase Avenida Contorno. Sol de meio dia. O corpo todo suava. As cores vibrantes berravam em mortalhas, barracas e decorações oficiais. Meus olhos atentos procuravam nesga de resquício de outros carnavais. Durante aqueles três anos em que estive ausente, muita coisa havia mudado no reinado de momo. A começar pelo ritmo. Estava mais africano, mais percussivo e mais calmo. Dos tempos que ia à rua acompanhado dos meus pais, lembrava perfeitamente dos solos de guitarra baiana, da batida do frevo, da frenética loucura, do pula-pula ensandecido. Foi só pisar na avenida que veio à mente a imagem que costumava ver de cima dos ombros de meu pai: trio chacoalhando, gente pulando e abrindo caminho na multidão com os cotovelos. Não em 1987. A história era outra. Não havia solos de guitarra. Ninguém pulava feito um louco. A música era mais lenta e dava até para ouvir o arrastar das sandálias no asfalto. Os braços subiam e desciam como uma referência aos nossos ancestrais africanos. Os dedos apontavam para cima. Só havia espaço para a alegria. Vivíamos sob a égide do fricote.

O novo ritmo, criado e propagado por Luiz Caldas, que também inventou o deboche, foi precursor do axé e era perfeito para o folião. Dava para curtir o dia inteiro e atravessar a noite e a madrugada sem parar, sem cansar. Era melhor para chegar nas meninas também, largar um papo, conquistar um beijo. Naquela época, não existia essa coisa que tem hoje, de beijar na marra. Tinha que conversar, convencer. E no suingue daquele novo som, tudo ficava mais fácil. E como foi tranquilo o meu primeiro Carnaval. Sem confusões, sem contusões, sem muito cansaço. Só alegria.

A partir de 1988, as coisas mudaram mais um pouco. Abri mão de sair com a turma grande, de dez pessoas, e passei a sair em dupla. Meus instintos juvenis estavam mais aflorados do que nunca e a festa passou a ter um objetivo a mais. Além de curtir o som, a gente queria beijar. Para este fim, sabia que sair em dupla era mais vantajoso. E o meu acompanhante único passou a ser Ítalo.

Ítalo era um vizinho de prédio. No condomínio de nome Jardim América, o edifício Brasil faz fronteira com o edifício Peru. Eu morava no Brasil, ele, no Peru. Ficamos amigos por causa do futebol, paixão em comum. Mas a amizade cresceu por causa de outros dois amores que dividíamos: festas e mulheres. O pai de Ítalo, que carregava o mesmo nome, era diretor do Clube Português da Bahia. Nas noites de sábado, nossa diversão favorita era pegar a chave da sala do escritório de Ítalo pai no clube e irmos entrar de “penetra” em festas que aconteciam por lá. Perdi as contas de quantas festas entrei sem ser convidado. Uma vez, chegamos ao cúmulo de dançar a valsa com uma debutante que nunca havíamos visto na vida. Primeiro eu, depois ele. A aniversariante foi muito simpática, por sinal. Nem pediu para que fôssemos embora, apenas para que não fizéssemos bagunça.

Entre 1988 e 1991, eu e Ítalo formamos uma dupla carnavalesca inseparável. Na avenida, na Barra ou nos clubes, estávamos sempre juntos, e nunca sozinhos. A ideia era sempre a mesma: curtir o máximo da festa, beber o máximo de cerveja e beijar o máximo de mulheres. Eu sempre ganhava nos dois primeiros quesitos, mas perdia feio no último. Quando o assunto era mulheres, a relação normalmente era de quatro ou cinco para uma. Em favor dele. Lembro que um dia, me dei ao trabalho de contar. Só para ter certeza. Indo para casa, dia já amanhecendo, a contabilidade era humilhante. Ítalo tinha ficado com cinquenta e duas meninas. Eu havia beijado dez. E tinha sido um grande dia para mim. Minha média costumava ser três ou quatro por dia, no máximo. É que eu tinha o péssimo hábito de me apegar às minhas paqueras. Deve ter a ver com a minha curiosidade crônica. Ao beijar uma garota, queria saber tudo dela. De onde vinha, onde morava, por que vivia, onde estudava; como agia, em que acreditava, para que time torcia, quem admirava. Ítalo era mais Bauhaus, eu era mais barroco; Ítalo era mais rápido, eu era mais carinhoso; Ítalo era mais literal, eu era mais semântico; Ítalo era mais prático, eu era mais romântico.

Em um desses carnavais que não sei precisar o ano, estava me desencantando com uma menina que beijava há dois dias. Daniela. Linda. Na época, o point era a Barra e, na Barra, a escadaria da Well’s, uma lanchonete que ficava na esquina da Avenida Oceânica com a Rua Dom Marcos Teixeira e que não existe mais. Naquele momento, Daniela falava sobre pessoas ricas e o que elas faziam. Que passeavam de lancha, que frequentavam o Yacht Clube, que viajavam para a Europa uma vez por ano, que moravam em coberturas com vista para o mar, que trocavam de carro a cada seis meses, que isso, que aquilo. Depois de todo o blá, blá, blá, abracei ela com força, dei-lhe um beijo molhado de cerveja e disparei um ingênuo petardo: — Eu sou pobre, mas eu te amo. — não que a amasse, claro que não. Na verdade, a intenção era fazer um trocadilho com a famosa frase “eu não presto, mas eu te amo”. Mas eu prestava. E não a amava. Ou seja, a frase é que não prestava para mim. E assim, sem prestar muita atenção, acabou saindo aquela declaração. Mas acho que ela entendeu a minha intenção. Acho. O problema não foi esse. Foi o que ela disse em seguida: — Mas você não disse que seu pai é publicitário? Publicitário não é tudo rico? — não sei de onde ela tinha tirado aquilo. Não sei quem havia dito a ela que todo publicitário é rico. O fato é que meu pai não era. Assim como também não era pobre, como posso ter deixado transparecer na frase que deu início ao processo de desencantamento com ela, a Daniela. É, foi uma infelicidade. A frase não prestava mesmo. Mas o problema é que depois de assumir não ser filho de um publicitário rico, ela esfriou. Era a nossa segunda noite juntos, isso em Carnaval já é namoro, mais, quase um noivado. Que estava acabando. Odeio términos. Fico mal de qualquer jeito. Mesmo em um domingo de Carnaval, dentro da folia, acima do bem e do mal, abaixo da linha do Equador, ao lado de um trio elétrico tocando a todo vapor.

Antes de sair dali, resolvi olhar em volta para ver se encontrava Ítalo. Não foi difícil. Ele estava próximo, no meio da escadaria da Well’s. Abraçava por trás uma morena muito bonita. Ele percebeu que eu o estava procurando e fez uma daquelas caras de sacana que costumava fazer quando estava acompanhado, como quem diz: — Fique olhando. — olhei para a frente. Não gostava de dar moral para as tiradas de onda de Ítalo. Mas por algum motivo que não consigo lembrar, me virei de volta para ver qual era. Ele já tinha virado a garota. Estavam um de frente para o outro. Ela de costas para a rua. Ele me olhou de novo e piscou o olho. Começou a beijá-la. Não era só um beijo. Tinha um algo a mais que eu não conseguia identificar. Algo no movimento dos seus corpos. Um certo exagero de braços. Uma certa tensão de músculos. A ação durou aproximadamente o tempo de uma música com solo de Armandinho e tudo. Chame gente. E eu ali, prestando atenção naqueles corpos em forma de serpente. Até que o beijo acabou. Ele virou a menina de novo e me encarou com um certo ar superior. Sinalizei com uma expressão tipo “grandes merdas”. Ele me chamou. Fui até o lado dele. Ele apontou o chão com os olhos. Não acreditei. A calcinha da menina estava lá, no meio da escada. Sem tempo para mais nada, nem comentários, sorrisos ou coisa que o valha, ela puxou ele pelo braço e foram os dois juntos, agarrados, para algum lugar que jamais saberei. Nunca perguntei. A peça íntima ficou ali, no meio da escada, como o sapato de cristal da Cinderela, mas sem príncipe para resgatá-la.

Desci a escadaria sorrindo e dançando. Fui atrás do trio de Dodô & Osmar. Daniela, a linda, me chamou. Olhei para ver se ela estava de saia, não lembrava. Não estava. Pensei: — Dani, dane-se. — segui em direção ao Farol da Barra, alma encharcada, boca sedenta, cabeça em vendaval. Que venham mais cervejas, que venham mais danças, mulheres e tramas até o nascer do sol. Gosto das ruas, do aperto, dos coros em canto, de todo o caos. Não há como negar, sou grito, sou pulo, sou mesmo filho do Carnaval.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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