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Se teve um disco que rodou na vitrola lá de casa no ano de 1980, foi Bazar Brasileiro, de Moraes Moreira. E continuou rodando muito durante todo o resto da década. Adoro aquele álbum até hoje. E, de vez em quando, ele ainda dá umas voltinhas na minha pick-up. Assim que ouvi o elepê pela primeira vez, fiquei fascinado por uma música chamada Pessoal do Alô. Não entendia muito o que a letra queria dizer, mas adorava o ritmo. Principalmente porque a música vai sendo cantada de maneira cada vez mais rápida até entrar em um transe frevístico muito parecido com os que faziam balançar o chão da praça nos meus primeiros carnavais.

Só depois de alguns anos, comecei a entender parte da letra, principalmente o verso “atrás do cheirinho da loló”. É que em 1988, comecei a ouvir com frequência essa palavra: loló. Uns colegas da escola falavam que era um barato, que dava a maior onda, que não dava para não experimentar. Ao contrário do que acontecia no condomínio onde morava, no Teresa de Lisieux, eu fazia parte da turma do fundão. Sempre fui bom aluno, apesar da minha posição geográfica em sala de aula. Podemos dizer que sou uma rachadura no paradigma, ou a exceção que confirma a regra, se você preferir. Comecei a assistir as aulas na parte de trás da sala ainda muito cedo, na alfabetização. É que sempre fui o mais alto da turma e as professoras me colocavam lá para eu não ficar na frente de nenhum coleguinha. Fui me acostumando com aquele ponto de vista. Além disso, a galera que ficava em volta, costumava ser bem mais interessante que aquela turma que sentava na frente, puxava saco, fazia perguntas idiotas e pedia silêncio só para agradar os professores.

Assim que ouvi falar em loló, lembrei do disco de Moraes Moreira. No mínimo, um bom pretexto para escutar Bazar Brasileiro de novo. “Vai ter auê, badauê, ebó. Chilique do cacique no ponto chique, atrás do cheirinho da loló.” Nem precisava ouvir. Conhecia aquela letra de cor (A expressão ‘de cor’ é assim mesmo, sem acento. É que vem de coração). “Cheirinho da loló”. Deveria ser algo bom, porque até o cacique ia dar chilique se não desse uma cheirada na tal da loló. “No ponto chique”. Será que era coisa de rico? Melhor perguntar:

- Mãe, você sabe o que é loló?

- Loló? Não.

Passando pela sala, Marcus, meu irmão mais velho, resolveu ajudar, não sem antes dar uma atrapalhadinha:

- Você tá cheirando é?

- Não, eu não!

- Hum, sei.

Minha mãe então saiu da passividade:

- Cheirando o que? O que é esse negócio aí?

- Loló, minha mãe. O lança-perfume dos dias de hoje. — Resumiu Marcus.

Aí fui eu que fiquei confuso. Lança-perfume? Peraí, eu estava falando de Moraes Moreira e você vem de Rita Lee? Como assim? Ativei a memória rapidamente. Como era mesmo a letra da música? “Lança, menina, lança todo esse perfume. Desbaratina, não dá pra ficar imune…” Hum, deixa a gente desbaratinado. No meio do raciocínio, minha mãe explicou:

- Ah, tá, lança-perfume. Na minha época, durante o carnaval, os rapazes jogavam esse negócio nas nossas pernas, nas nossas costas. Era para chamar atenção. Aquilo era gelado! Quando tinha briga, tinha gente que jogava no olho do outro. Aquilo ardia! Depois proibiram porque tinha gente cheirando. Parece que a pessoa fica meio doidona quando cheira isso. Hum, aquilo não faz bem!

- E a senhora nunca cheirou?

- Eu não! Deus que me livre. Esse negócio de droga não é nada bom, meu filho. Espero que você fique longe disso. Não é esse o exemplo que você tem aqui em casa.

Não era mesmo. Meus pais sempre foram caretas. Apesar de meu pai ser publicitário. Lembro até que teve uma época que eles tentaram fumar. Cigarro mesmo, nicotina. Era moda. Eles se sentiriam mais à vontade nas reuniões sociais. Não conseguiram. Verdade. Ao contrário de gente que tenta parar de fumar e não consegue, eles tentaram fumar e fracassaram. Ainda bem.

Naquele mesmo ano, 1988, durante a gincana da escola, na realização de uma daquelas tarefas que entravam pela madrugada, tive minha primeira chance de cheirar loló. Estávamos no playground de um prédio e uma turma foi para o lado de fora. Fui junto. O pano molhado começou a circular. Prestei bem atenção na técnica de cada um. Mas antes de chegar a minha vez, fui chamado para ajudar a resolver um problema lá dentro. Não foi daquela vez. Já perto do final do ano, numa aula de química, alguém resolveu perguntar qual era a diferença entre Moraes Moreira e Rita Lee. Quer dizer, entre loló e lança-perfume. Luiz, um professor jovem e gente boa, explicou. Mesmo dizendo que não era careta, falou dos perigos de consumir loló. Disse que a diferença básica estava na produção. Enquanto o lança-perfume era industrializado, até porque é usado em vários países como água sanitária, a loló era a sua versão caseira. Por isso mesmo, menos seguro. Segundo ele, o outro perigo estava na forma de cheirar: — Se você não for devagar, pode até morrer — enfatizou. Depois ele colocou a composição química da loló no quadro e explicou, item a item, o motivo daquilo ser tão perigoso. A partir daí, deixei de prestar atenção. Já estava aterrorizado o bastante e, além do mais, como gostavam de cantar Herbert Vianna e Renato Russo, “eu odeio química, química, químicaaaaa!”.

Odeio, mas tenho uma ótima história no meu currículo. Tem coisas que não dá para esquecer. Foi naquele mesmo ano. Última prova da quarta unidade. Precisava tirar uma nota relativamente alta para não correr o risco de ir para a recuperação. Não lembro se era sete ou oito. Estudei como nunca. Estava tão confiante no dia da prova, que fiz uma aposta com Luiz. Se eu tirasse dez, ele me daria um ponto na média final. Ele ficou tão desconfiado, que aceitou. Mas logo na primeira questão, pânico. Parecia que estava lendo um outro idioma. Não entendi nada. E a questão era aberta. Na época, nossas provas se dividiam em duas partes: uma estilo Federal e outra estilo Católica. Os dois vestibulares mais importantes de Salvador. As questões da Católica eram de múltipla escolha, as da Federal eram abertas e normalmente mais difíceis. Resolvi seguir respondendo a prova enquanto me refazia do susto que tomei com a primeira questão. Respondi tudo. Sabia que ia tirar uma nota boa. Só não ia rolar o dez, mas pelo menos não iria para a recuperação. Para não deixar a primeira questão em branco, resolvi chutar. Arriscar um palpite em questão aberta é dose, né? Uma chance em um milhão. Impossível. E eu nem tinha ideia se a resposta era com letras, números ou uma fórmula. Resolvi que ia colocar um número. Perguntei ao professor que dia era aquele. Dia doze. Escrevi na prova: 12. E não é que eu acertei? Acho que naquele dia, usei todo o meu estoque de sorte. Depois daquilo, nem bingo de quermesse eu ganho. Nada. Se soubesse, tinha deixado para usar a sorte em uma outra oportunidade. Como numa Mega Sena acumulada, por exemplo. Bom, pelo menos melhorei minha média final em Química.

Alguns meses depois de toda aquela explicação sobre loló, que me deixou apreensivo, tive uma segunda oportunidade para cheirar a dita cuja. Era janeiro ou fevereiro de 1989. Em uma festa pré-carnavalesca que aconteceu no Clube Português da Bahia. Baile Vermelho e Branco, do Bradesco. Nunca trabalhei no banco brasileiro de descontos, mas se você está lendo essas crônicas na ordem, já sabe que eu não tinha problemas para entrar no clube quando quisesse. Antes de chegar neste dia, porém, teremos que voltar um pouquinho no tempo. Não tanto. Réveillon. Dia trinta e um de dezembro de 1988. A turma dos da frente do Jardim América tinha resolvido passar a meia-noite em casa com os pais e depois descer para o Clube Português, onde estava rolando uma grande festa com vários shows de bandas baianas. Além disso, havia uma outra combinação. Cada um comprou uma garrafa de Rom Bacardi. A ideia era ir bebendo pelo caminho. O clube ficava a uns dois ou três quilômetros do condomínio, e a gente ia andando.

Ainda não tinha completado dezesseis e o álcool fazia parte da minha vida social há menos de dois anos. Ou seja, faltava experiência. Atravessei toda a Avenida Paulo VI bebendo minha garrafa de rom. Estava me sentindo um pirata. Estava mesmo ficando pirado. Já cheguei pronto. Dei uma última golada de Bacardi e fui para o bar pegar umas cervejas. A festa já estava bombando. Dançávamos como se não houvesse amanhã. Até porque não havia mesmo. Primeiro de janeiro é um dia que não há. Ou não é? De repente, Ítalo pai aparece com duas gatas. Não lembro os nomes. Seria exigir demais da minha pessoa. Apresentou as duas para Ítalo filho. Ele me chamou. Já estava lá. Nos apresentamos. Ítalo cochichou: — Você quer a loira ou a morena? — As duas! — respondi. Risos se seguiram. Começamos a dançar. Se não me engano, o ritmo da moda era a lambada. Até hoje não inventaram nada melhor para se armar em festas com shows. A partir daí, lembro de muito pouca coisa. Lembro de Marcus me puxando pelo braço, eu estava deitado no campo de futebol do clube. Lembro também de abrir os olhos deitado em uma poltrona no escritório de Ítalo pai, sol quase nascendo. Lembro de estar apertado no fundo do chevette de Ítalo pai, entrando na rua do condomínio. Lembro de acordar no final da tarde do dia que não há, sem entender absolutamente nada.

Uns dois dias depois, numa conversa com Ítalo, fiquei sabendo que após dançarmos um pouco, fomos para o campo de futebol, que era onde as coisas esquentavam. Só que dei PT (perda total). Deitei no gramado e lá fiquei. Ítalo disse que as meninas eram insanas e, como eu queimei a largada, ele teve que dar conta das duas. Isso mesmo. Ele ficou com as duas. Ao mesmo tempo! Poucas vezes senti tanta raiva de mim mesmo como naquele dia. Mais tarde, fiz um juramento em frente ao espelho: jamais iria perder uma outra oportunidade daquela por causa de bebida. Uma promessa que seria testada poucos dias depois, no baile Vermelho e Branco.

Semana que antecede o Carnaval. A cidade fica iluminada. Parece que a alegria acende, ascende, transcende. Tudo brilha. Tudo promete. Tudo é trilha. Tudo pede. Tudo com T maiúsculo. Tudo tesão. Chegamos cedo ao clube. Nada de rom no caminho. Nada de rom nunca mais. Era a primeira vez que havia abandonado uma bebida por causa de uma ressaca. Cerveja. Foco na cerveja. Já tinha tomado algumas, mas estava longe de ficar bêbado. Estava ligado. A turma era grande. Alguém deu a ideia: — Cadê a loló? — o pano começou a circular. Estava exatamente no meio da roda. Enquanto as pessoas iam cheirando, eu ia lembrando da aula de química, dos conselhos de Luiz. É perigoso. É caseiro. E tem que tomar cuidado. Tem que saber cheirar. Você pode morrer. Eu era pura agonia. Tremia. Ao meu lado uma menina que tinha acabado de conhecer. Ela era a próxima. Pegou o pano. Alguém reforçou a quantidade. Ela foi com vontade. Cheirou e caiu de cara no chão, desacordada. Quando viramos a menina, boca e nariz eram puro sangue. Carregamos ela até a enfermaria. Saí de lá impressionado, mas aliviado. E com uma certeza: jamais vou cheirar loló.

A festa continuou e, daquela vez, quem estava doidaço era Ítalo. Ele tinha bebido rom, cerveja e cheirado muita loló. De repente, ele apareceu na minha frente com as duas gatas da festa de réveillon. E antes que pudesse duvidar, já estávamos dançando. Ítalo pediu para a gente ir para o campo, que ele ia ver algo lá em cima. Fomos. Estava aos beijos e agarrões com a loira e a morena lá, esperando Ítalo, que não aparecia nunca. Estava incomodado com a situação. Disse que ia lá ver o que tinha acontecido. Elas não deixaram. E fizeram comigo o que já tinham feito com Ítalo na festa de final de ano. As duas. Em falta de um adjetivo melhor, posso afirmar que foi incrível. Inesquecível. Ítalo tinha ido pro escritório do pai. Estava péssimo. Tinha medo de dar vexame. Preferiu ir descansar. Só o vi dois dias depois. E aí, fui eu que tirei onda. Cantei Pessoal do Alô pra ele, me achando o próprio Pena Branca da zona franca de Maceió. Vendendo peixe, passando piche, eu me sentia o azeviche, apache do Tororó, mandando um alô pro pessoal do aló. Ele não entendeu nada. Nem eu. Mas quem disse que precisa entender?

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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