RUA DA GÁVEA, Nº 10, LEBLON.

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Não adianta procurar este endereço no Google Maps. Este lugar só existe em um canto da memória de um garoto que gosta, vez ou outra, de voltar no tempo. Em 1983, fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Fiquei encantado pela cidade maravilhosa. Todas as ruas pareciam cenários de novelas. E os pontos turísticos então, eram inacreditáveis. Mas entre cristos e pães de açúcar, praias e lagoas, pontes e bondinhos, as duas mais fortes emoções da viagem ficaram guardadas para o último dia.

Aprendi muitas coisas com meu pai. Entre elas, o amor pelo futebol e o respeito aos outros, suas vontades, suas preferências, seus desejos… Era início de uma tarde ensolarada de janeiro, estávamos voltando ao apartamento que meus pais tinham alugado no Leblon, depois de um passeio pelo jardim zoológico. Ao entrar no prédio, vi uma menina linda, loura, cabelos lisos e cumpridos. Ela estava sozinha, sentada em um banquinho no playground do edifício. Paramos em frente ao elevador. Virei para vê-la de novo. Ela me chamou. Fiquei sem saber o que fazer, meio constrangido. Acabei entrando no elevador com meus pais, meus irmãos e minha vó.

Lá em cima, virei uma pilha. Ficava andando de um lado para o outro, muito ansioso. É que meu pai havia prometido me levar à Gávea, centro de treinamento do Flamengo, para eu ver Zico. Queria ir logo. Zico era o meu ídolo no futebol. Gostava tanto dele, que chegava a vibrar quando o Flamengo ganhava. Logo eu, de estirpe tricolor. Meu pai dizia que a gente podia torcer para qualquer time que tivesse três cores, mas tinha que ter três cores. Ou seja, Santa Cruz em Pernambuco, Fortaleza no Ceará, São Paulo em São Paulo, Grêmio no Rio Grande do Sul, Fluminense no Rio de Janeiro estavam liberados. Acontece que, naquela época, o brasileirão não tinha a força que tem hoje e o campeonato que acompanhávamos mesmo, durante todo o ano, era o estadual. Por isso dava para torcer por tantos times diferentes. Mas na verdade, a gente torcia mesmo era pro Bahia, o tricolor de aço da Boa Terra. Íamos praticamente a todos os jogos.

Agora imagine um pai tricolor até a alma ver um filho começar a simpatizar com um time rubro-negro por causa de um jogador. Tem que saber respeitar muito a vontade do outro. Pois meu pai não só não se incomodava que eu torcesse por Zico, como ainda fez questão de me levar à Gávea. E olhe que, durante toda a viagem, ele nem sequer mencionou a possibilidade de conhecermos o estádio do Fluminense, nas Laranjeiras. E se você está achando que tudo isso é pouco, tem mais. Meu pai ainda comprou uma camisa do Flamengo para mim, com direito a número dez e o nome Zico estampado nas costas.

Pois é, como se não bastasse a tensão de estar para conhecer meu grande ídolo, ainda tinha aquela novidade. Uma menina linda, no playground do prédio me chamando pra não sei o quê. Meu coração estava quase saindo pela boca e, antes que ele pulasse de uma vez, resolvi descer. — Pai, vou te esperar no play, viu?

Quando abri a porta do elevador, no térreo, a menina estava lá, no mesmo lugar, sentada, sozinha. Ela me viu e começou a me encarar com um sorriso. Quando eu estava no meio do caminho indo em sua direção, ela se levantou e foi para a parte do fundo do prédio. Fui atrás. Ela se encostou na parede. Me aproximei. Ela perguntou:

- Como é seu nome?

– Mário.

– Você agora mora aqui?

– Não, só estou passeando. Vou embora hoje à noite.

– Você mora onde?

– Em Salvador.

– Onde fica isso?

– Na Bahia.

– Ah, tá. Você tem namorada?

Não teve jeito. Naquele momento, a imagem de Jamille me veio à cabeça. Não éramos namorados, mas eu gostava tanto dela, que era como se fôssemos. Minha sensação era que eu namorava Jamille, mas Jamille não me namorava. Respondi:

- Tenho.

– Poxa, que pena. Será que ela ia ligar se você me desse um beijo?

– Beijo? Onde?

– Na boca, ué.

– Acho que ela não ia nem saber.

– Então você me dá um beijo?

– Como é seu nome?

– Carina.

– Por que você quer que eu lhe dê um beijo?

– Porque eu achei você bonito.

Respeitei o desejo dela, aceitei o convite com um leve movimento de cabeça e a beijei. Sem língua. Apenas um longo encontro de lábios sinceros, ingênuos e molhados. Se ela não estivesse ali, com a boca colada na minha, provavelmente meu coração teria pulado para fora. Durante aqueles segundos, perdi a noção de tempo e de espaço. Tenho certeza que tirei os pés do chão, flutuei e levantei voo, fazendo um passeio de asa delta pelos céus do Rio de Janeiro. Nuvens, morros, olha o Cristo! A baía, a ponte, a lagoa, o jockey, os dois irmãos… No meio do voo, ouvi a voz do meu pai: — Mariozinho!

Aterrissei rapidinho. Abrimos os olhos e só deu tempo de dizer: — Tchau. — fui ao encontro de meu pai, na frente do prédio: — Tava aonde? — Ali atrás. — E aí, vamos? — Claro! — estávamos a três ou quatro quadras do centro de treinamento do Flamengo. Por isso, eu, meu pai e Moisés, meu irmão mais novo, chegamos rápido. O time estava fazendo um coletivo. Assistimos aos minutos finais de bola rolando da arquibancada. Nem acreditava que estava ali, vendo aquele time. Na época, ver o Flamengo jogar era mais que um prazer, era uma honra. Há menos de dois anos, aqueles jogadores tinham encantado o Brasil, a América do Sul e o mundo ganhando tudo o que podiam. Naquele ano, com algumas modificações, o time formado por Raul, Leandro, Figueiredo, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio, Tita e Zico; Baltazar e Lico também jogou muito e acabou por conquistar o terceiro título brasileiro deles contra o Santos no Maracanã.

No final do treino, descemos as escadas da arquibancada e eu comecei a pegar autógrafos de quase todos os jogadores. Até do presidente do Flamengo na época, Márcio Braga, ganhei assinatura. Mas ainda faltava o autógrafo principal, o de Zico. Quando acabou o coletivo, ao contrário dos outros jogadores, Zico foi para um lugar reservado. Uma fila se formou em frente a um portão gradeado. Todos queriam falar com o número 10 da Gávea. E esperavam pacientemente. Paciência que também não faltava ao craque, que ia recebendo um por um, com muita educação e simpatia. Quando chegou a minha vez, Zico foi ótimo. Me abraçou, conversou, deu o autógrafo e perguntou se a gente não queria tirar uma foto. Claro que queríamos. Nos posicionamos, eu e ele agachados, Moisés no colo dele. Mas na hora do clique, nada. Meu pai tinha uma máquina que, com baixa luminosidade, só tirava foto se estivesse com flash. Naquela época, as máquinas automáticas tinham flashes móveis. E meu pai não tinha levado o dele porque achou que não precisaria. Zico, muito solícito, ainda disse que poderíamos voltar no outro dia e que nem precisaríamos pegar mais fila. Não dava. Naquela noite, estávamos indo para São Paulo e, de lá, voltaríamos para Salvador. Ficamos sem a foto, mas eu fiquei com a lembrança intacta de um dia cheio de fortes emoções.

Quando chegamos de volta ao prédio onde estávamos hospedados, dei uma boa olhada pelo playground para ver se via Carina de novo. Não vi. Mais tarde, à noite, fomos à rodoviária, pegar um ônibus rumo à capital paulista. Lembro de abrir os olhos algumas horas depois e ver o dia amanhecendo em uma cidade feia, dura e sem graça. Pensei: — É isso que é São Paulo? Preferia o Rio. — desde aquele dia planejo voltar à Rua da Gávea, nº 10, no Leblon. Acho que hoje consegui.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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