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Chovia tanto naquele quase fim de tarde que eu não pude deixar de abrir a janela por quase um segundo para ter certeza. A água invadiu a minha sala. Molhou a minha cama. Jogou-me no chão. Aos poucos fui deixando ela entrar. E gostei. Suas gotas iam banhando o meu cabelo ralo. Iam escorrendo pelo meu rosto seco. Lambendo o meu peito nu. Vi que seria melhor sair. Lembrei de uma vez em frente ao espelho onde disse em voz alta para que pudesse ouvir: toda experiência tem que ser vivida por completo.

A rua estava completamente deserta. Algumas nuvens tinham acabado de cobrir os últimos raios de sol. Não havia estrelas. Apenas centenas de muitos vazios. Era estranho poder andar sem ser notado. Um sonho quase que acordado. Pele de jogo suado. Gosto de lágrima. Rosto sem armas. Tinha todo o tempo do mundo. A chuva não dava trégua. Parecia querer cavar um túnel na terra. Um túnel do tempo. Um momento. Perdido no espaço. Invadido pelo vasto, imenso, denso ar.

Tentava pular, correr, demonstrar a minha felicidade. Mas mal conseguia andar. Saindo do meu corpo e vendo em plano aberto aquela cena, identifiquei um espantalho ao ser desgarrado do seu solo e demitido da sua tarefa de espantar corvos. A única saída era sentar. Ali no meio do nada. Àquela altura “nada” era o que mais tinha forma. Vivia numa cidade distorcida. Derretida. Uma cidade engolida pelas águas do céu. Era como se tudo aquilo estivesse dentro de uma nuvem. Estávamos dentro de uma nuvem. Fechei os olhos. Deitei no chão. E não posso negar que tive algum tipo de medo. Um certo receio de que viesse um caminhão. Esses carros grandes não escolhem muito a hora de passar. Atropelar. Talvez não precisem se preocupar com o tempo. Mas aquele medo me excitava. Estava completamente desprotegido. E nem a chuva poderia me oferecer mais do que a morte. E eu até que estava precisando morrer um pouco por aqueles dias.

Acho que já dormia quando a primeira estrela brilhou em um canto de céu. Não sei. Não lembro de ter visto. Acho que era o gosto da água entrando pelas minhas narinas. A dificuldade em manter vivas as minhas funções respiratórias. A delícia de se afogar no asfalto. Uma gota fechou os meus olhos. Para que abri-los? Uma enxurrada encheu minha boca. Para que fechá-la? Procurei o ar bem lá no fundo. Não achei. Tentei não resistir. Não resisti. Tentei morrer. Deixar o corpo ir. Em plena água. Em plena rua asfaltada. Em pleno centro da cidade. Numa noite de segunda-feira. Deixei o corpo ir. A alma se foi. Respirar para que? Cravado de gotas, morri.

Abri os olhos no céu. No mesmo céu que já havia caído em forma de lágrimas. Mas eram muitas as estrelas. De onde vieram? Fiquei com medo que elas também caíssem. Mas elas pareciam firmes. Decididas a ficar onde estavam. Para que cair? Estava no céu. No mesmo céu que me matara. No mesmo céu que me levara sem que eu tivesse lutado. Nenhuma nuvem. Nenhuma vida. Meu corpo estava colado em algum tipo de chão. Tentei levantar. Desgrudar. Caí. Agora tentei com mais força. De novo. E mais uma vez. Consegui. Aos poucos a imagem real foi se formando à minha frente. Era uma rua. Uma cidade. A minha cidade. Os mesmos prédios. As mesmas casas. Os mesmos carros sem velocidade. A mesma idade. A mesma identidade. Não morri. Nem estava no céu. Acho que o céu estava em mim. Acho que não passava de um réu. Condenado a viver outra vez. Quando olhei para o relógio notei que já passavam das três. Madrugada fria. Temperatura que endurecia, enrijecia minhas vértebras. Não estava certo de que ainda conseguiria andar. Estava longe de casa e nenhuma alma penada poderia me ajudar. Manquei a noite toda. Em busca de uma cama. Uma verdade insana. Numa noite estranha.

Quando o primeiro raio de sol brilhou numa gota que sobrou no canto do meu olho, eu estava em frente à sua casa. Olhei para cima e doeu. Criei coragem e liguei. Você não estava. Soube que a cama ainda arrumada declarava que ninguém havia dormido ali. Ouvi alguns gritos. Choros de bebê. Entendi que deveria continuar descendo a ladeira. Ouvi uma voz dentro de mim dizer que ia ser muito mais difícil do que eu poderia imaginar. Sentia cada passo. Cada toque. Cada molécula de vento rasgando meu corpo. Olhei em direção ao horizonte e não vi outra saída. Só poderia tentar voar.

Escalei o primeiro prédio que encontrei. Busquei todo o tipo de força que imaginei ter. E nem sonhava que tinha. Enquanto subia, rezava. Pedia para chegar em casa. Enquanto passava pelas janelas dos apartamentos entendia que a vida ainda era digna de ser vivida. Que valia a pena. Apesar de todas as suas regras, seus cotidianos, suas metas sem graça, seus péssimos planos. Mesmo com todo o café da manhã. Com toda a família reunida. Com todos os gostos de um dia normal. Gostos amargos de toda a rotina. Era bom tentar. Era bom voltar. E foi pensando nisso que cheguei ao terraço daquele edifício e, ao invés de me jogar, gritei. Até não ter mais voz.

Eu ainda não sei como lhe chamar. Talvez nem saiba como dizer. Não entendi nada. Não busquei nenhuma maneira inteligente. Não faço parte de um mundo distante. Eu não sou um dissidente. Não registro teorias. Não invento euforias. Não participo de nenhum movimento social. Sou normal. E só queria que você soubesse que eu quero muito que tudo isso dê certo. Eu quero muito que, seja lá o que tenhamos começado, chegue a um final feliz. Mas eu admito que vou precisar da sua ajuda. Eu preciso de você. E talvez esta tenha sido a frase mais importante que conseguiu escapar pelos meus dedos no teclado até agora. Eu preciso de você. Já não sou tão forte nem tão romântico para conseguir levar nós dois até o céu. Nós somos pesados e a nave só vai funcionar se ligarmos os dois motores. Preparada para viajar? Está fazendo um dia lindo hoje.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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