Ontem eu morri. Fazia sol e eu estava na beira do mar de uma praia na ilha. Nas mãos uma carta, selada com cera quente por ela. Ela é o nome vou dar à pessoa que escreveu a carta. Espero que entenda. Ou me perdoe, o que é quase a mesma coisa. Antes de abrir a carta, dei uma boa olhada em volta. E vi grama, coqueiros, águas, poucas ondas e alguns barcos. Pessoas em traje de banho e bandos de gente de roupa. Apesar do calor absurdo, do azul quase impossível, da luz indescritível. Não era um bom dia para morrer. Deveria ser proibido morrer em dia de sol. Não há tristeza que se sustente com tanto calor. Mas ali estava eu. Sentado em uma mureta na beira da areia de frente para a praia. Pelo menos ventava. Um vento quente ventava. Arfava. Era difícil segurar a carta. Era difícil segurar as lágrimas. Que se misturavam às gotas de suor que escorriam pela testa molhada.

Calor em volta. Mas em mim, tormenta. Dessas violentas. Uma dor que não se inventa. Só podia ser real. Ondas gigantes seguem constantes. Cortantes. Mareiam meus olhos. Sacodem minha alma. Calmaria sem calma. Larva que vem do centro. Que não lava por dentro. Mas chacoalha meus sentimentos. E tenta me afundar. Inundar tudo o que lembro com dor e sofrimento. Me recuso a aceitar. E para evitar afundar, não paro de navegar. De tentar nadar. Abro a carta na esperança que dela se fizesse vela. Quem sabe um vento a favor. Uma lufada de amor que me levasse a uma mudança de humor. Uma bonança sem dor.

Mas nenhuma das letras desenhadas ali me deram algo sequer parecido com uma esperança. Apenas verdades. Nuas. Cruas. Capazes de encobrir o céu com nuvens e baratinar minha bússola. Vistas escuras. Gosto de sangue na boca. Sensação louca de estar preso a uma força que me puxava ao fundo e me afogava junto com todas as minhas alegrias, fantasias, memórias e ilusões. Tropecei na dor profunda e caí na areia quente. Não sei se estava morto. Mas não respirava. Nem tentava. Só esperava.

Hoje estou no quarto do apartamento de um amigo no Rio Vermelho. Chove muito. Parece que nunca vai parar. Chego à janela e procuro qualquer ponta de azul no céu. Mas não vejo nada. Tudo turvo pelo vidro da janela embaçada. É tudo água. Inclusive na minha cara. Meus olhos chovem também. E estranhamente eu me sinto tão bem. Do mesmo jeito que a rua lá embaixo se deixa molhar e deixa a água lavar e levar toda a sujeira, a poeira e os resíduos do verão. Do mesmo jeito eu deixo as lágrimas lavarem minha alma arrancando cada parte de uma saudade nada saudável, quase impenetrável e assustadoramente desagradável. Era hora de não tentar entender. Ou pretender. Apenas deixar a água escorrer e deixar o corpo viver o que ocorrer. Ontem, tudo o que eu tinha, queria, pensava, era, morreu. Mas hoje me parece um bom dia para nascer. Ou renascer. De novo ser meu.

Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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