Você conseguiu tirar a última gota de serenidade do meu coração. Fez gelar o meu corpo, derrubou meu copo no chão. Sujou a parede que acabou de ser pintada. Pintou os meus sonhos com uma cor suja e desbotada.

Você se transformou em um furacão. E como um raio humano, despencou sobre minha cabeça. Bateu com força na incerteza, iluminou um rastro de solidão no corredor entre o quarto e a cozinha, que jazia imperfeita numa receita mal feita: a desequilibrada relação entre a necessidade de desabafar
e a agonia de querer se declarar.

Será mesmo que deveríamos nos declarar? Que temporal de sinceridade é este que resolveu invadir o ar? Que mania é essa de querer deixar o verbo ganhar vida? E como força inanimada, incompreendida, matar, rasgar, ferir, ainda que perdida, em plena despedida, na porta de saída.

É sempre a ponta do punhal entre a caneta e o papel. É sempre a dor mais desleal entre a cabeça e o anel. É sempre a ação mais surreal entre o quadro e o pincel. Há sempre uma distância monumental entre o feito à mão e o industrial.

Quero pegar a primeira ponte aérea, invadir o céu de noites, molhar chuvas em açoite, nadar em nuvens de alegrias incertas e respirar. Chegar até você. Até você chegar.

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Entre gritos e gemidos, salvam-se tolos.

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